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A Memória

1-o comboio parou. estávamos a chegar ao meu país. de espanha para portugal. eu tinha vindo de visitar o júlio. o júlio era meu amigo. ainda o é. estava na holanda. ainda por lá estive três semanas a quatro semanas. tinha ficado impressionado. não só com o azul de delft. mas com o ar que se respirava. da liberdade. da democracia. o júlio não podia vir a portugal. estava exilado na holanda. por isso lá fui depois de vir da guerra. daquela que se dizia ultramarina. e que um dia um senhor chamado dr. salazar nos tinha enviado para lá. na holanda já corria nos meios portugueses alguma coisa sobre os militares de abril. mas dizia: o comboio parou. estávamos em abril de mil novecentos e setenta e quatro. ano em que cheguei de angola. tinha ido para a tropa por castigo. andava como tantos nas associações de estudantes no porto. por isso tropa e guerra. parou o comboio e entraram uns tantos. fardados e à civil. não eram novos viajantes. simplesmente polícias. das alfândegas e duma polícia de segurança do estado. a minha mala vinha carregada de panfletos e outras informações. que obtive na holanda. segui as instruções. o comboio tinha umas cabines na horizontal. na vertical um longo corredor. eu devia sair da cabine e colocar-me no corredor. se abrissem as malas nada tinha a ver com isso. se passassem ainda bem. passaram. nada abriram para meu consolo e descanso. voltei a sentar-me e saí em campanhã.

2- em portugal nada se passava. depois das caldas da rainha. estava tudo calmo. mas falava-se de algumas coisas. dos militares. do livro de spínola. estávamos próximos do primeiro de maio. haveria que fazer alguma coisa. as manifestações teriam de ser cada vez mais amplas. o testinhas ajudava a distribuir a propaganda. há e o julio que já faleceu. este júlio era outro. estava em portugal. tinha alguém da família que pertencia a forças de segurança. ainda me lembro. uma vez estava a ser ameaçado pela policia. e ele foi comigo para a praia do areinho. lá acampamos e ele levou um revolver. da pessoa que era das forças de segurança. grande amigo este júlio. como o outro. por gaia não existia muita gente para distribuir propaganda. mas o testinhas ajudava sempre. o testinhas lembra-se. trabalhou no comércio do porto. motorista. quando fechou o jornal ficou desempregado. muitos papéis distribuímos. de noite. era preciso muito cuidado. nos nossos grupos existia gente infiltrada.

3- não me deitei tarde nesse dia. dormi bem. se me lembro acordei lá pelas dez da manhã. levantei-me e sai um pouco. no meu bairro a quininha disse-me que alguma coisa havia em lisboa. a quininha era a mãe do fernando. o morais. estava em paris. bom rapaz. se tudo tivesse acontecido bem eu teria ido ter com ele. assim fui mesmo para angola. desci afonso de albuquerque e vinha a subir o fernando. vinha do banco onde trabalhava. muito contente. havia alguma coisa na capital que os bancos fecharam. estavam informações a ser seguidas pela rádio clube português. mas as canções eram das nossas. este fernando não era o morais. mas o soares. dei meia volta e voltei para casa. e lá ouvi na telefonia de então algumas notícias. fui para o porto. muita gente já andava na rua. a polícia de segurança pública estava toda nas suas esquadras. fechados. começamos uma grande manifestação. pedras contra o consulado da áfrica do sul. subimos santo antónio. sentido era a prisão da policia de segurança. não cantando e rindo. mas alegres e muito bem-dispostos. perto uma rajada de metralhadora. nunca soube o que foi. disseram que era a legião portuguesa. foi capaz de ser. que alegria quando os presos políticos assomaram à varanda.

4 – nem eu. nem o testinhas. desta vez não distribuímos panfletos. o povo de gaia numa monstruosa manifestação. dirigia-se ao porto. mas que grande. para passar a ponte tivemos de ser em grupos. porque com o caminhar das multidões poderia a ponte vir abaixo. quem atingia o porto via que muito para cima da camara de gaia vinha a cauda da manifestação. no torne a sua bandeira estava içada. tinha sido a minha escola primária. o porto foi ocupado totalmente. não havia rua. nem praça. nem beco. nem viela. que não estivesse à cunha. o povo do porto dizia alegre que era o primeiro de maio de mil novecentos e setenta e quatro. já podia escrever o meu texto em letra pequena.

joaquim armindo
doutorando em ecologia e saúde ambiental
mestre em gestão da qualidade
diácono da diocese do porto

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