Cautelas não acauteladas

A história de Portugal tem sido rica em muitos momentos, arriscaria mesmo dizer mais momentos do que a maioria das outras nações, em muita boa ondulação e de vivências e, por outro lado, em muita má ondulação com momentos de grande amplitude negativa.

Esta bipolaridade tem sido pouco acautelada por todos nós portugueses, que insistimos em cair nos mesmos erros sistematicamente. Em nós o desejo pelo fruto proibido cantando com o assobio matreiro da cantiga da serpente é-nos muito mais fácil aceitar do que aprender com os erros de Adão e Eva e prosseguir para a construção de outro pomar, quem sabe mais saudável que nos permitiria a nós portugueses experimentar a segurança da não repetição sistemática dos mesmos erros.

Atente o leitor que, neste momento, a discussão em Portugal prende-se com a saída pós troika com ou sem programa cautelar. Não sou contra essa discussão, pelo contrário, até deveria ser mais profunda, mas o que me tem importunado severamente é a ausência de discussão sobre o que este terceiro resgate contribui para a nossa aprendizagem. Qual o balanço que fazemos de tamanho sacrifício? Que reformas verdadeiramente estruturais foram feitas? Que erros temos a certeza que não cometeremos novamente no futuro?

Não quero retirar o mérito ao actual primeiro ministro. Aliás, pelo contrário, uma vez que o critiquei pela atitude, pela miopia, pela falta de diálogo, mas a verdade é que definiu um rumo, um objectivo e de forma obstinada conseguiu atingir. Penso até que mais do que de uma forma obstinada, acho mesmo que com tudo o que se vivenciou, foi quase de forma milagrosa que se vê chegado a esta meta. Nesse capítulo, Portugal tem nele uma figura de referência, a quem deve (doa a quem doer) agradecer essa obstinação… Mas então reincido na mesma questão: que reformas verdadeiramente estruturais foram feitas?

Perturba este autismo, discutimos programas cautelares, mas não acautelamos outros resgates, não acautelamos o futuro, não acautelamos a nação como a conhecemos. Discute-se muito e aprende-se pouco…

Termino com uma breve referência ao 1º de Maio que à data que esta publicação sair, já terá sido comemorado. Permito-me uma breve nota para reforçar tudo aquilo que escrevi anteriormente. Realço novamente o esforço bem sucedido deste governo, pese embora tenhamos ainda um longo caminho a percorrer no que à empregabilidade dos jovens diz respeito. Estamos mais literados, estamos mais inteligentes, estamos mais inventivos, e, paradoxalmente, continuamos muito desinformados.

Numa coisa tenho a certeza que será possível realizar… na certeza que não asseguramos cautelas para o futuro (tenhamos ou não qualquer programa cautelar), tenhamos a inteligência, a capacidade, a visão de saber continuar a lutar pelas nossas convicções, pelo nosso futuro, pela nosso pais e, porque não assumi-lo de uma nação que se sobrepõe a tudo isto.

Como diz e bem o povo “unidos, jamais seremos vencidos”.

Ricardo Filipe Oliveira
Médico
Mestre Eng. Biomédica (FEUP)
Lic. Neurofisiologia (UP)

Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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