“Começar Mal”

Francisco Vieira de Carvalho serve-se do prestígio e do nome do pai e usa-os como bandeira da sua candidatura à presidência da Câmara Municipal da Maia. Creio que não há mal nenhum nisso, pois há muito boa gente que ainda pensa que filho de peixe sabe nadar e que, seguindo esse raciocínio lógico, o filho de um bom presidente de Câmara bom presidente de Câmara será.

É claro que só saberemos se este aforismo bate certo, ao ser aplicado a Francisco Vieira de Carvalho quando e se ele vier a ser eleito para o cargo a que se candidata e se, algum tempo depois de eleito, for possível aos cidadãos avaliar o seu desempenho no cargo.

Até lá, a obra de que dispomos para o julgar não vai além dos enormes painéis publicitários com a sua cara espalhados pelas ruas do concelho e, mais recentemente, pela carta que dirigiu aos Caros (as) Maiatos (as), com que inundou as caixas do correio dos seus conterrâneos.

Tendo por objetivo justificar esta sua candidatura, Francisco Vieira de Carvalho escreve a dado passo, na referida carta, que “nos últimos anos assistiu-se a um abrandamento preocupante. Perderam-se pessoas, perderam-se empresas, perderam-se oportunidades, o comércio está a agonizar”. E é contra este estado de coisas que ele se levanta e se propõe servir a Maia.

Considerando que esta carta não esclarece os seus destinatários sobre que oportunidades se perderam, nada podemos contrapor a tal observação. Mas, no que respeita a outros quesitos, as estatísticas oficiais ajudam-nos a refletir fundadamente sobre eles.

Comecemos, pois, pela população, fixando o olhar no quadro 1, que expõe com meridiana clareza a evolução populacional do país, da área metropolitana do Porto, do município do Porto e do concelho da Maia:

 Quadro 1 – População (Fonte: Pordata)
Território 2009 2013 Variação (%) 2015 Variação (%)
Portugal 10.362.700 10.557.600 + 1,88% 10.358.100 – 1,89 %
Área Metropolitana do Porto 1.763.813 1.745.640 – 0,99 % 1.727.486 – 0,99 %
Porto 242.652 224.894 – 7,32 % 216.405 – 3,78 %
Maia 133.558 135.971 + 1,88 % 135.748 – 0,16 %

É evidente que, ao contrário do que escreveu Francisco Vieira de Carvalho na sua carta, face ao que se passou nos demais territórios citados e a despeito de uma pequeníssima variação negativa em 2015 (menos 223 habitantes em dois anos), no concelho da Maia não se perderam pessoas.

E quanto às empresas que se perderam?

As empresas não financeiras sediadas no município da Maia que eram em 2009, segundo dados da Pordata,15.802, decresceram em 2015 para 14.752.

É verdade que se perderam, de facto, nestes seis anos, 1.050 empresas, ou seja cerca de 7%. Mas essa redução do tecido empresarial maiato não é mais do que o reflexo da crise económica e financeira que assola o País desde 2008, a que nenhum dos concelhos limítrofes da Maia escapou, como se pode ver no quadro 2, que resulta da soma das empresas existentes com as empresas criadas menos as empresas extintas durante o referido período.

Quadro 2 – Empresas não financeiras (Fonte: Pordata)
Município 2009 2015 Variação (%)
Gondomar 15.604 14.434 – 7,50 %
Maia 15.802 14.752 – 6,65 %
Matosinhos 20.482 20.209 – 1,33 %
Porto 39.662 36.840 – 7,12 %
Santo Tirso 6.288 5.959 – 5,23 %
Trofa 4.107 3.875 – 5,65 %
Valongo 9.410 8.632 – 8,27 %
Vila do Conde 8.018 7.925 – 1,16 %
Maia e área envolvente 119.373 112.626 – 5,65 %
Portugal 1.223.578 1.181.406 – 3,48 %

Embora a perda de empresas ocorrida no concelho da Maia entre 2009 e 2015 se situe ligeiramente acima da média nacional e da média da região, este indicador, só por si, não chega, no entanto, para se poder afirmar que a Maia perdeu a pujança e o vigor económico de outros tempos, pois há outros dados que importa ter em conta, sendo um deles o que se relaciona com a evolução do volume de negócios realizado pelas empresas maiatas ao longo do mesmo período de tempo.

É dessa evolução que dá conta o quadro 3, onde se compara a realidade maiata com a realidade da Área Metropolitana do Porto (incluindo o concelho do Porto) e da realidade do País, e através do qual se pode ver que o volume de negócios das empresas da Maia cresceu, 0,84% entre 2009 e 2015.

Quadro 3 – Volume de negócios das empresas, em Euros (Fonte: Pordata)
Região 2009 2015 Variação (%)
Maia 6.562.294 € 6.617.375 € + 0,84 %
Porto 13.521.881 € 12.136.453 € – 10,25 %
Área Metropolitana do Porto 158.408.625 € 151.663.532 € – 4,26 %
Portugal 340.846.176 € 331.601.856 € – 2,71 %

Durante o mesmo lapso de tempo o volume de negócios das empresas do concelho do Porto reduziu-se 10,25%, o da Área Metropolitana diminuiu 4,26% e o do País, como um todo, baixou 2,71 %.

Estes esclarecedores dados ajudam-nos a concluir que, apesar de se ter assistido a um emagrecimento do número de empresas não financeiras instaladas no concelho da Maia, o seu desempenho económico melhorou, tendo evoluído em claro contraciclo relativamente às regiões do País tomadas para termo de comparação.

Francisco Viera de Carvalho terá, por isso, de nos explicar melhor o que quer dizer quando afirma que a Maia perdeu pessoas e perdeu empresas e que, apesar de as empresas restantes terem passado a ser mais eficientes e a riqueza e a economia do concelho terem, por isso, aumentado, a Maia tenha deixado de ser o potentado económico de outros tempos, a que ele se refere.

É um facto que ainda não são conhecidos os programas eleitorais com que tanto este como os restantes candidatos à Presidência da Câmara da Maia se irão apresentar às eleições autárquicas de Outubro e, por isso, é cedo ainda para fazer comparações entre eles e fundamentar uma escolha consciente.

Mas é óbvio que, com este tão evidente mau começo, Francisco Vieira de Carvalho terá muito e árduo trabalho pela frente para conseguir convencer os eleitores de que as suas intenções e propostas são sérias, bem fundadas e úteis para a Maia e para as suas gentes, sendo certo que não basta, para cativar os maiatos, falar-lhes emotivamente ao coração e invocar que nasci na Maia, formei família na Maia, vivo e viverei na Maia. Ou assegurar o lugar-comum de que tenho um amor incondicional por esta terra, pois isso nada o diferencia de muitos outros milhares de maiatos que não se propõem ser líderes de município nenhum mas que, na humildade das suas vidas, sem se desfazerem em autoelogios e sem se candidatarem a cargos públicos, já certamente terão feito muito mais pela sua terra e pelas suas gentes do que Francisco Vieira de Carvalho…

Joaquim de Matos Pinheiro

2 comments

  1. Manuel Pesqueira

    Snr Joaquim de Matos Pinheiro, com o devido respeito que possa ter pela sua opinião, não concordo com ela. Como mais velho que eu cerca de 7 anos, com certeza que se recorda da 1.ª vez que o falecido Professor Dr Vieira de Carvalho, foi Presidente da Câmara da Maia, sucedendo ao Snr Coronel Moreira, tinha eu cerca se 18 anos e o Snr cerca de 25. Que experiência autarquica tinha o Professor na ocasião?. Porque não da o Snr o beneficio da duvida ao filho Francisco, quando o mesmo terá agora o dobro da idade e muito mais experiência profissional e de vida. Como sabe tanto a lógica como a psicologia têm por objecto a actividade do espírito, mas fazem-no de maneira tão diferente que não se podem ou não se devem confundir. Nao podemos querer atingir ou ofender o carácter de uma pessoa comparando o presente com o passado de um Pai. A psicologia e uma ciência positiva e interpretativa que observa e descreve os factos como eles são, e procuram explica-los, determinando a sua natureza e origem e não deve ser utilizada em lutas políticas autárquicas e muito menos para atingir o carácter de um candidato. Ela estuda o mecanismo do pensamento, as causas do erro (mas aqui o erro ainda não existe), a influencia da afectividade e da vontade na actividade intelectual. Emite juízos de realidade, diz apenas O QUE E e COMO E, mas como se poderá dizer isso a um candidato sem se saber do que ele será capaz? Não duvido da veracidade dos seus gráficos apresentados, mas não seria mais interessante apresentar gráficos sobre as actividades comportamentais, sobre algumas pessoas ligadas nas ultimas dezenas de anos ao poder no interior da Câmara da Maia, nos tais labirintos internos do poder que levaram algumas pessoas aos abusos do poder tirando por vezes proveito económico juntando o útil ao agradável ? Já pensou por exemplo em fazer gráficos de produção e entrega nos serviços técnicos camarários de projectos efectuados nos gabinetes mais conceituados no nosso Concelho, durante as ultimas décadas após o 25 de Abril? Pois, pois, Snr Joaquim de Matos Pinheiro, dedique-se a esses estudos, a essas estatísticas, pois tenho toda a certeza que quando Francisco Vieira de Carvalho se refere as pessoas, refere-se ao carácter das mesmas e não a outras coisas.

  2. Joaquim de Matos Pinheiro

    Sr. Manuel Pesqueira,

    Li com muito interesse o seu comentário ao meu escrito. Asseguro-lhe que vou dedicar alguma atenção aos temas que me sugere e prometo que voltarei a eles.

    Quanto ao resto o que lhe posso dizer-lhe é que não fiz quaisquer juízos de carater sobre Francisco Vieira de Carvalho, pois nem o conheço (apesar da estreita relação que manrtive com o Pai).

    O que fiz, isso sim, foi confrontar algumas afirmasções por ele feitas na sua carta aos Maiatos que me pareceram desajustadas da realidade mas que, apesar disso, talvez soem bem aos ouvidos dos eleitores, e é essa “pos verdade” que condeno.

    Isto, é clasro, nada tem a ver com a inexperiência autárquica do candidato, que, com certeza, será comum a muitos eleitos quando assumem o seu primeiro mandato, pelo que, como eu escrevi, o verdadeiro mérito de FRncisco Vieira de Carvslho só poderá ser avaliado mais tarde – se ele for eleito.

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