Do defeito do modelo, aos modelos com defeito

Foi possível ontem, pela primeira vez (e única) ouvir em debate aqueles que são os dois principais candidatos às eleições legislativas do próximo dia 4 de Outubro.

Todos perceberiam que eu estava a mentir se aqui viesse dizer que aguardei ansiosamente o debate para poder esclarecer o meu sentido de voto. Esse já há muito está definido. Contudo, confesso que tinha bastante curiosidade em perceber como se desenrolaria o debate, feito à luz de um novo modelo “à Americana”.

Durante largas dezenas de minutos, foi claro para todos a colocação estratégica de cada candidato. De um lado Pedro Passos Coelho, o líder da coligação Portugal à Frente e homem responsável por quatro anos ao leme de um barco, que aquando da sua chegada ao comando, se encontrava a afundar. Do outro, António Costa, candidato do Partido Socialista, responsável por ter deixado o tal barco, meter água e iniciar a submersão.

Ficou suficientemente claro que de um lado temos o candidato da verdade, do crescimento, das oportunidades e do sucesso para o país e do outro, temos a demagogia, a promessa fácil e a clara sensação de que se o “milagreiro das rosas” vencer, o destino do país, será novamente, o fundo.

Foi ainda claro para todos que António Costa e José Sócrates não são assim tão diferentes. O homem que agora diz que o principal responsável pela vinda da Troika e Pedro Passos Coelho e a coligação PSD/CDS, está certamente esquecido, que os motivos para tal visita, foram culpa do seu partido e daquele que era o seu líder, do qual, Costa foi número dois. Ficou ainda claro que Costa, tem alguma dificuldade em discernir que apenas pagou dívida em Lisboa, enquanto  presidente de Câmara, porque o Governo o dotou de condições financeiras para tal. Foi também óbvio o baixo nível de argumentos, quando, à sua moda, Costa diz a Passos Coelho para ir debater com Sócrates, que certamente agora se encontra em melhores condições para
Tal (pelo menos mais tempo para estudar os temas terá certamente.

Ao longo do debate, os candidatos esgrimiram diversos argumentos mas, pela primeira vez, não entre si, mas entre cada um deles e os jornalistas que ali se encontravam, para os questionar (e avulsas vezes, dar uma ou outra opinião, defendendo assim a isenção e o rigor jornalístico, ou a falta deles).

O modelo “à americana” que “traduzido” para português foi nada mais, nada menos, que uma enorme confusão, ao nível de qualquer programa desportivo de domingo à noite.

Judite de Sousa, Clara de Sousa e João Adelino Faria, sendo extraordinários jornalistas, foram
ontem, péssimos moderadores, limitando o debate ao cumprimento quase obsessivo de um guião previamente definido (e muito bem) entre eles, mas que, pouco espaço deu à troca de opiniões e argumentos entre os próprios candidatos, sendo essa troca interrompida até, por 6 minutos de publicidade.

Contudo, tenho quanto ao debate a mesma opinião que tenho quanto às sondagens. Não podemos, quando nos são favoráveis pular de alegria, e quando são menos favoráveis dizer
que valem o que valem e culpar o sistema.

Ontem, o defeito não foi só do modelo, foi também, dos modelos.

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