paulo ramalho II

Marcelo ganhou mesmo… e tem especial legitimidade

Conforme se esperava, Marcelo Rebelo de Sousa foi mesmo eleito Presidente da República. Com 52% dos votos, foi o candidato mais votado em todos os Distritos e nas Regiões Autónomas. Foi uma vitória “à primeira volta”, clara e inequívoca, que não deixou dúvidas sobre a vontade maior dos portugueses.

Vitória, que reconheçamos, se deveu essencialmente ao próprio Marcelo, à sua própria pessoa, assente numa estratégia que desenhou e desenvolveu quase em solitário. Com efeito, não renegando as suas origens e os laços com a família social-democrata, cedo se distanciou dos aparelhos partidários, ousando arriscar uma campanha “sóbria e discreta”, simples, sem os tradicionais cartazes, mega-jantares e comícios. Uma campanha “baratinha”, sem especialistas de propaganda… Quase sempre sozinho, sem a companhia das “grandes figuras”, Marcelo apostou tudo na força da proximidade e na relação de confiança que ao longo de anos foi construindo com os portugueses.

Sendo que se é verdade que a notoriedade que alcançou enquanto comentador político de televisão lhe conferia uma vantagem considerável sobre os demais candidatos, não é menos verdade que Marcelo era também o candidato mais escrutinado de todos, pois ao longo de anos e anos partilhou opinião sobre as mais diversas realidades da vida política e social, nacional e até internacional. Todos sabíamos quase tudo sobre Marcelo, para o bem e para o mal.

Daí que a vitória de Marcelo é acima de tudo a vitória de um cidadão, que tem uma carreira profissional, política e social, que tem uma história de vida, que tem uma forma de ser e de estar que os portugueses conhecem. De um homem especialmente preparado e inteligente, que é também uma pessoa simples e comum. Não foi por acaso que naquela noite de 24 de Janeiro, Marcelo escolheu a Faculdade de Direito de Lisboa, seu local de trabalho de há muitos anos, para agradecer aos portugueses a confiança que então lhe haviam depositado…

Acresce que Marcelo, para além de não estar condicionado por apoios de natureza partidária ou de outra qualquer, foi eleito com votos de todos os quadrantes políticos, que atravessam todo o universo ideológico da sociedade portuguesa, da direita à esquerda. O que tudo lhe confere uma especial legitimidade para desenvolver um mandato presidencial com independência e isenção, o que em boa verdade, sempre se espera de um presidente que é de todos os portugueses e tem a suprema missão de garantir o “regular funcionamento das instituições democráticas”.

Sendo com expectativa confessa (atento o ambiente político em que o país se encontra), que aguardamos pelo início de funções do Presidente da República eleito, para percebermos melhor qual a verdadeira interpretação que faz, agora em pleno exercício prático, da extensão dos poderes presidenciais. Matéria que sempre mereceu discussão ao longo de mandatos anteriores, e que Marcelo, o professor de direito e especialista em questões constitucionais, sempre teve até uma opinião…

Uma nota para duas candidaturas promovidas e suportadas de forma expressa por estruturas partidárias. Marisa Matias, a candidata do Bloco de Esquerda, alcançou um meritório 3º lugar, com 10,1% dos votos, conseguindo assim manter mobilizado o eleitorado do seu partido. Em contrapartida, Edgar Silva ficou muito longe dos objectivos do Partido Comunista, conseguindo apenas 3,95% dos votos. Uma derrota muito pesada, que seguramente lançará os dirigentes do PCP para um mar de dúvidas…e possivelmente para uma mudança de estratégia relativamente à futura postura do seu partido no seio da “coligação de esquerda” que suporta no Parlamento o actual Governo socialista.

Também Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, apesar do apoio de destacadas personalidades do Partido Socialista, incluindo alguns actuais Ministros, ficaram distantes do objectivo de forçarem Marcelo a uma segunda volta. Sendo que Maria de Belém, que a três semanas das eleições chegou a ter 16% das intenções de voto, no “dia da verdade”, surpreendentemente, não alcançou sequer os 5% dos votos, valor necessário para ter direito à subvenção estatal para fazer face às despesas da sua campanha eleitoral.

Ainda uma palavra para o grande resultado de Vitorino Silva, o “Tino de Rans”, que com 3,29% dos votos, alcançou um notável 6º lugar. E foi mesmo o 4º mais votado no Distrito do Porto! Mais de 150.000 votos no universo nacional. Muito voto. Uma boa parte seguramente de protesto…,mas não só…

Por último, a abstenção: 49,9% dos eleitores não foram votar. Muito preocupante para quem continua a acreditar na democracia…Sendo que desta vez, tínhamos dez candidatos, e apenas dois formalmente apoiados por estruturas partidárias. Pelo que se é verdade que a credibilidade da política e dos políticos já viveu melhores dias, não é menos verdade que a sociedade civil também não está a ajudar, muito menos a fazer o seu papel…

Paulo Ramalho
Vereador do Desenvolvimento Económico e das Relações Internacionais da Câmara Municipal da Maia

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