O colapso do mercado financeiro mundial, a Adega do Arsénio e o Táxi do Gervásio

Caros Leitores

Depois de finalizado o período de férias em que o nosso País “relaxa” um pouco, é hora de regressamos às nossas vidas mundanas e rotineiras e, também, às “escritas”.

Como tal, no artigo desta semana, resolvi fazer uma ligação, no mínimo curiosa, e entenderão, no final, o motivo, entre a crise internacional, uma adega e um táxi.

Conheço muito bem a Adega do Arsénio, localizada para os lados de Matosinhos, pois era um local que, muito embora as empregadas tentassem, com algum afinco, manter aprazível, era dos locais mais sujos que conheci. Parei por lá, algum tempo, para confraternizar com pessoas amigas que por ali almoçavam com regularidade e, porque era, também, o único no caminho para um cliente que tinha de visitar, com regularidade. A deslocação aos sanitários era uma aventura. Além de apertados, muitas vezes não tinham sabonete nem toalhetes para a limpeza das mãos, contudo e verdade seja dita, tinham sempre papel higiénico. Os copos nunca estavam bem lavados, apresentando sempre manchas e marcas de dedos, as toalhas de mesa rasgadas e inundadas de álcool e refrigerantes. Muito embora os almoços tivessem excelente aspecto, confesso que, nem sempre, tinha coragem para os saborear.

O táxi do Gervásio era parecido com a Adega do Arsénio. Os bancos tinham um aspecto sujo e com as pontas rasgadas. Um dos bancos traseiros tinha uma mola solta, que já tinha rasgado, por diversas vezes, as roupas dos clientes. O carro era sua propriedade, mas ele dizia à “boca cheia” que era uma idiotice “investir nestas coisas”, pois o rendimento era curto. Os miúdos da zona de paragem do táxi diziam, insistentemente, que as suas bicicletas estavam mais limpas que o táxi do Sr. Gervásio. O próprio Gervásio não se vestia de acordo com a sua profissão e, por vezes, cheirava mal, tendo obtido a curiosa alcunha de “doninha” entre os colegas taxistas. Porque seria?!

Mas, estará agora o leitor, a perguntar-se qual a relação entre o colapso do mercado financeiro mundial com a Adega do Arsénio e o táxi do Gervásio?

O problema é que, tanto o Arsénio como o Gervásio entendem tudo sobre finanças internacionais: lêem jornais e revistas durante todo o dia, assistem a todos os noticiários dos diversos canais televisivos e radiofónicos, conhecem os nomes completos dos presidentes dos Bancos Centrais dos países mais importantes, quem orienta os nossos desígnios financeiros europeus, falam sobre finanças, macroeconomia e política como verdadeiros doutorados (por vezes, sem noção do que estão a dizer).

Há algum tempo, o Gervásio comentava com um amigo comum, que estava muito preocupado com a crise americana e a sua repercussão nos mercados europeus, assim como a força laboral chinesa que ameaçava o equilíbrio financeiro nacional e mundial. O Arsénio, por sua vez, mostrou-se desolado com a queda das acções das maiores empresas americanas.

Ambos estão, constantemente, a reclamar da vida. Dizem que os clientes estão a desaparecer e que não querem pagar o justo valor pelo trabalho que executam; dizem desconfiar que até o desaparecimento dos seus clientes está fortemente ligado à crise mundial da queda das bolsas internacionais e da “bolha imobiliária” americana, de 2008 e 2009.

É minha opinião que, as pessoas não devem viver alienadas da realidade internacional e das notícias que afectam, directa ou indirectamente, a nossa vida diária mas, a minha questão é simples e concisa: não deveriam o Arsénio e o Gervásio cuidar mais da sua Adega e do seu táxi, em vez de tentarem fazer mestrados e doutoramentos em finanças internacionais?

E se em vez de comprarem e lerem os jornais diários e revistas durante todo o dia, assistirem ou ouvirem noticiários e discutirem política e economia, não lhes seria mais útil e importante comprarem uma vassoura, um pano, detergente e limpar a Adega? E se o Gervásio melhorasse a sua imagem como motorista profissional, e limpasse e cuidasse do seu táxi?

Será que o desaparecimento dos seus clientes se deverá, na realidade, à crise internacional? Ou, em contrapartida, ao péssimo serviço que prestam aos seus clientes pois, uma imagem asseada é fundamental para quem está neste tipo de negócios?

Acho que todos nós, caros leitores, conhecemos alguém como o dono da Adega e o Gervásio.

Os detalhes e a diferenciação são os pilares da estratégia competitiva … pense nisso caro Leitor !!

Muitas vezes, olhamos para o jardim como um todo, quando a diferença está numa simples flor.

Francisco Martins da Silva
Engenheiro e Docente do Ensino Superior

PS: os nomes apresentados são fictícios.

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