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Os médicos também se desiludem…

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Provavelmente o nome de Danielle Ofri não lhe diz nada. Trata-se, contudo, de uma médica com obra publicada no domínio das emoções relativas ao médico no seu contexto profissional, pessoal e na sua interacção com o doente.

Um dos seus últimos livros “What Doctors Feel: How Emotions Affect the Practice of Medicine.” relata bem alguns dos aspectos desta cumplicidade. Podendo ser lido por qualquer um, pode tornar-se numa ferramenta importante para que doentes e clínicos possam mutuamente descobrir os seus anseios, frustrações, comportamentos e, desta forma, melhorar a qualidade de prestação de serviços clínicos.

No entanto, o que me faz recorrer a Danielle Ofri na crónica desta semana, prende-se com o seu artigo na revista “The Times” também ele publicado nesta semana intitulado “The Epidemic of Disillusioned Doctors”.

São assombrosamente assustadoras as parecenças nas peripécias nesse artigo contadas e o que vivemos actualmente no nosso Serviço nacional de Saúde ou até noutras prestadoras de serviços de saúde. É descrito num texto com um ritmo quase aflitivo um episódio em que a médica se apresenta perante um doente que não fala a língua materna da médica, simultaneamente o sistema informático não funciona, tendo que recorrer simultaneamente ao telefone para o informático do hospital, assim como a um tradutor que lhe possibilite a tradução das queixas da doente, e ainda pressionada por uma norma da sua instituição que lhe diz que deve atender cada paciente até um período máximo de 15 minutos, caso contrário não estará a ter os níveis mínimos de qualidade que lhe são exigidos. Entre traduzir, ligar e desligar computadores que não funcionam, dar atenção ao paciente queixoso que nem fala a língua materna do país, não é possível manter os 15 minutos considerados essenciais, para manutenção do padrão de qualidade. Quer dizer, se calhar até era, mas pergunto ao leitor se gostaria de estar no lugar do paciente? Pois bem, seguramente que não…

Este episódio nos seus contornos gerais é tão assustadoramente familiar que facilmente como doente já reparou que quando vai a alguma consulta seja onde for, ou algum serviço de urgência, quantas das vezes não encontra alguém a suspirar e a insultar um qualquer computador ou impressora por perto…

Mais, é aterrador perceber que, segundo os cálculos de Danielle, os médicos passam cerca de 22% do seu tempo a tratar de papelada não clínica!!! Isto equivale a cerca de 165 000 (!!!) médicos em marcha lenta com trabalho burocrático em vez de ver doentes.

Tudo isto, aliado a uma não compreensão por parte do paciente do que se passa (nem tem de compreender), com uma não correspondência salarial à responsabilidade a que estão sujeitos, pela prática cada vez mais defensiva da profissão (fruto, por exemplo, do “endeusamento” da informação colhida online em detrimento do conhecimento clínico do médico), a uma pressão para ter resultados numéricos em detrimento de resultados em pessoas, tem levado a um aumento exponencial da frustração na medicina, levando, em países mais desenvolvidos, a que a profissão esteja a ser preterida em função de outras… (lá terão os nossos jovens médicos de emigrar para esses países)

Mas haja esperança, afinal segundo o seu artigo, os clínicos escolhem medicina para contactar e ajudar as pessoas em primeiro lugar. Por outro lado, enquanto jovens, e se do sexo masculino conseguem ser mais resilientes a todas estas intempéries que tentam atrapalhar a boa prática médica.

Formas de resolver? É simples. Liberte-se o trabalho burocrático e transfira-se para quem estudou esses assuntos… tão simples, tão barato, tão gerador de emprego e de eficiência clínica…

Por isso, e bem vendo as coisas, ainda há muitos samaritanos dispostos a ajudar quem realmente precisa… mas isso não se vê nos números do INE, vê-se isso sim na luta diária que cada médico faz para resolver o problema individual de cada um dos seus doentes.

Mas atente, porque os médicos também se desiludem!

Por: Ricardo Filipe Oliveira
Médico
Mestre Eng. Biomédica (FEUP)
Lic. Neurofisiologia (UP)

Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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