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Tanta parra para tão pouca uva

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Escrevo no meu triste rescaldo do resultado entre a Alemanha e Portugal. No fundo, e tal como a maioria dos portugueses, esperava uma certa superioridade desportiva para tentar compensar, embora apenas de forma astral, uma superioridade em quase todos os capítulos dum país como é a Alemanha.

O nosso país precisou da assistência económica e do aval dos germânicos, e, logo a seguir, somos goleados (mais uma vez), por uma organização logístico-desportiva francamente melhor. Não vou, nem quero entrar em comparações desportivas de domínio táctico, porque treinadores de bancada somos todos, e ainda por cima, temos todos sempre razão, mas gostava que o leitor atentasse nas semelhanças entre o que se passa nestes países e nas suas respectivas selecções.

Repare o leitor, os germânicos logo perceberam que se tinham de adaptar ao clima independentemente do seu valor desportivo. Por isso, com a sua humildade e rigor, esqueceram os jogos festivos, os números de circo, a passerelle, e puseram mãos ao trabalho, chegando mais cedo ao Brasil e concentrando-se naquele que consideravam o jogo mais difícil: o jogo de estreia contra Portugal. Os portugueses passeavam pelos E.U.A., distribuindo autógrafos e tendo uma cobertura mediática de todos os seus movimentos particularmente ridícula. Tão Ridícula que o conhecido humorista Ricardo Araújo Pereira tratou de parodiar (e bem)… Percebemos durante o jogo, os portugueses cansados, e com o infortúnio de terem tido lesões musculares, comportamentos menos dignos… Apenas uma triste e infortunada coincidência, pois os Alemães que já lá estavam e escolheram um local de estágio com a humidade próxima da dos jogos a que estarão sujeitos, tiveram a “sorte” de estar melhor adaptados ao clima, e por esse motivo, terem tido menos esforço, melhores performances físicas, resultando num ónus de lesão quase nulo… Os portugueses seguiam o fuso horário de Portugal, chegando atrasados ao jogo às conferências de imprensa… Os germânicos… nem por isso! Será coincidência…? O seleccionador germânico explicava a vitória com a adaptação ao clima, o português explicava a derrota com o árbitro… Mas será que minguem lhe disse que todos vimos o jogo pela TV? Bem, e pensando melhor, se me oferecessem um mês no Brasil, e perdesse um jogo por goleada, também culparia o árbitro!!! O jogo seguinte da selecção será ainda num local mais húmido, e a Federação Portuguesa de Futebol escolheu para estágio um dos locais menos húmidos do Brasil nesta altura do ano… Mas que raio, não há ninguém que se organize em Portugal? Não há ninguém que pense? Iremos ser sempre dependentes do desenrasque tuga (que eu muito aprecio) e da sorte alheia para vivermos?

Neste contexto, confesso que me faz alguma confusão a recusa do governo português do último cheque da troika com uma taxa de juro (muito baixa) garantida. Compreendo que nos temos financiado a taxas muito atractivas nos mercados, mas será que somos já autosustentáveis?! Não me parece… então porque será? Será que assim pagamos o favor a outros países que nos ajudaram como … a Alemanha (entre outros)…? Estranho… Muito estranho, e pior, uma jogada de enorme risco que pode trazer consequências imprevisíveis ao nosso país e aos portugueses. Não aproveitamos a conjuntura e não fizemos as reformas estruturais, queixamo-nos continuamente do nosso fado, da nossa saudade, mas não somos capazes de planear, de projectar, de reformar… Até a constituição portuguesa tem culpa! Mais curioso é que se emigrarmos somos dos mais competentes que pode existir, pois aliámos de forma explosiva o nosso desenrasque, com o rigor que nos é exigido. Quererá isto dizer que só ficam em cargos importantes nacionais alguns espertalhões desenrascados, e quem tem valor procura outros voos?

Mudo de assunto para falar de António Costa… Tanta sede de poder, tanta sede de protagonismo… Há um dito popular elucidador deste comportamento: “quem vai com sede ao pote, raramente encontra que beber ou que comer”. Esta manobra politica de António Costa tem a meu ver a vantagem de ser uma manobra de tudo ou do nada. De facto, pelos estudos disponíveis na imprensa, António Costa goza de uma popularidade tremenda, mesmo com casos sensíveis e públicos como o do túnel do Marquês de Pombal ou das contas publicas da câmara Municipal de Lisboa, ou dos fundos para a Fundação de Mário Soares, mas quem vai com sede ao pote… O José Seguro, coitado, que até era contra as eleições primárias, agora já acha que é uma excelente solução, dando o dito por não dito… O que não se faz para estar próximo do poder!

No meio disto tudo apetece mesmo dizer “tanta parra para tão pouca uva”, e nós vamo-nos entretendo em fait divers que apenas nos distraem do essencial, nos afastam do importante, e que faz com que a última taxa de absentismo para as eleições europeias tenha permitido a eleição de fracções extremistas e, mesmo, anti-politica Europeia… Como e onde conseguimos esquecer da importância de votar? Quando é que perdemos vontade de estar em democracia e de honrar esse gesto nobre que é simplesmente Votar? Nem que seja em branco, nulo… apenas o de honrar o nosso dever democrático…

O leitor desculpe este meu pessimismo, mas por favor compreenda… Fui goleado pela Alemanha… Mas pensando bem, se tirarmos hoje, somos goleados por eles todos os dias…!

Ricardo Filipe Oliveira
Médico
Mestre Eng. Biomédica (FEUP)
Lic. Neurofisiologia (UP)

Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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