1.- A laranja foi trazida para Portugal pelos árabes durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica, que começou no século VIII. Foram eles que introduziram técnicas agrícolas avançadas e novas culturas, incluindo a laranjeira, contribuindo de forma decisiva para a difusão da fruta no território português. Muitos dos alimentos atualmente considerados tradicionais em Portugal têm origens estrangeiras, tendo sido introduzidos no país ao longo dos séculos por diferentes povos e através das rotas comerciais. Para além da laranja, que chegou a Portugal trazida pelos árabes durante a ocupação muçulmana, e do milho, trazido pelos portugueses da América Central após o século XV, outros exemplos relevantes incluem o tomate, a batata e o feijão, todos vindos do estrangeiro. O arroz, por sua vez, foi introduzido por povos do Oriente, enquanto a cana-de-açúcar chegou através das expedições portuguesas à Madeira e ao Brasil. Estes alimentos, hoje presentes na base da gastronomia portuguesa, ilustram a riqueza e diversidade de influências culturais que moldaram a alimentação nacional. A laranja com o tempo, espalhou-se pelo mundo através das rotas comerciais, sendo introduzida na Europa pelos árabes durante a Idade Média, o que explica parte das influências culturais associadas à fruta. Atualmente, é cultivada em diversos países, tornando-se uma das frutas mais populares globalmente. Embora a laranja não seja originária de um país muçulmano, a sua introdução na Europa foi feita através dos árabes, que desempenharam um papel fundamental na disseminação da fruta durante a Idade Média. O milho foi domesticada há milhares de anos pelos povos indígenas, tornando-se um dos principais alimentos das civilizações pré-colombianas, como os maias e os astecas, trazido para Portugal após a chegada dos portugueses ao continente americano, no final do século XV, por exploradores e navegadores portugueses que, ao contactarem com as culturas indígenas da América Central e do Sul, o trouxeram o milho, onde rapidamente se adaptou e passou a ser cultivado em várias regiões do país.
2.- Tudo isto como reflexão das atuais eleições para Presidente da República e as suas votações: de um lado os “vendedores” de um trumpismo-venturismo, que nada tem de democrático e a quem todos e todas (à democracia) devemos a liberdade de pensar de formas diferentes; do outro, um humanista e democrata, que pode ser o que quiser, mas que quer dar ao nosso povo a liberdade de pensar diferente, porque é nesta pluralidade que temos um povo unido. Se conhecemos o que foram os 50 anos da liberdade, quantos de nós, conhecemos as diversas faces do fascismo – que inclusive me enviou para uma guerra, a combater o que eu não queria -, esses, os que não conheceram o fascismo, querem reeditá-lo, nas faces de venturismo, que são sempre de um homem só. Por aí não vou, vesti o camuflado em guerra, mas não para um público inflamado e ávido por populismos onde já se verificou não ter futuro em Portugal, o meu país.
3.- Sem querer retirar o nome de cristão a ninguém, sempre coloco aqui as palavras do patriarca de Lisboa “A tarefa pastoral da Igreja é ser ela própria uma comunidade de encontro que promove o encontro” e de bispos dos EUA “Como pastores encarregados do ensinamento do nosso povo, não podemos ficar de braços cruzados enquanto decisões são tomadas que condenam milhões a vidas aprisionadas permanentemente à beira da existência. O Papa Leão XIV deu-nos uma direção clara e devemos aplicar os seus ensinamentos à conduta da nossa nação e dos seus líderes.”, sobre migrantes, que objetivamente o trumpismo-venturismo não subscrevem, aliás, como se lê na “Carta Ecuménica” recentemente lançada em Lisboa e na boca dos discursos que uma representante da Cáritas e outra migrante cubana diácona da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana.
4.- Neste contexto, pode-se afirmar que, segundo uma visão mais restritiva sobre o conceito de “portugalidade” — como aquela associada a discursos políticos que defendem exclusividade nacional — a laranja, por ser um fruto com origem estrangeira e história migrante, poderia ser vista como um “não-português” e, portanto, rejeitada por propostas como as do partido venturista, que advogam pela valorização exclusiva do que é considerado nacional. Contudo, esta perspetiva ignora o contributo valioso das influências externas que, ao longo dos séculos, enriqueceram a cultura e a gastronomia portuguesa, mostrando que a identidade nacional é, na verdade, resultado de múltiplas migrações e trocas culturais. No contexto da discussão sobre a origem da laranja e a questão da “portugalidade”, os dois candidatos à 2.ª volta das eleições presidenciais, apresentam abordagens políticas bastante distintas. Assim, a principal diferença reside na forma como cada político interpreta e utiliza o conceito de identidade nacional: o venturismo, na sua ânsia antissocialista e de extrema-direita, privilegia uma perspetiva restritiva e nacionalista, ao passo que o outro candidato, destaca a riqueza da diversidade e integração das influências externas na cultura portuguesa. Ao defender que a laranja é também Portugal, sublinha-se que a identidade nacional é, por natureza, plural e fruto de múltiplas influências históricas, culturais e migratórias. Se valorizamos a laranja como elemento integrante da nossa cultura, apesar da sua origem estrangeira, faz sentido optar por um candidato que reconheça e celebre esta diversidade. Assim, numa segunda volta das eleições presidenciais, votar num candidato que promova a inclusão, a integração e a valorização das contribuições externas, será uma escolha coerente com uma visão aberta e plural de Portugal. Esta opção reflete o entendimento de que a riqueza do país está precisamente na sua capacidade de acolher, integrar e transformar influências diversas na sua identidade nacional.
5.- Quem tem ouvidos para ouvir, ouça, e logo saberá em quem não votar!
Joaquim Armindo – Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental


