Segundo a lenda, tudo começou quando um fidalgo de Guilhabreu terá tentado violar uma jovem que seguia caminho. Ao fugir, a rapariga escondeu-se numa seara. O senhor, sabendo disso, mandou incendiar o campo e ordenou aos seus escravos que vigiassem as saídas para impedir a fuga. Um desses homens, descrito na tradição como justo e cristão, terá deixado a rapariga escapar.
A Campa do Preto, em Gemunde, no Castêlo da Maia, permanece como um dos lugares mais singulares da memória popular do concelho. A lenda fala de um homem negro morto no final do século XVIII e transformado pelo povo em figura de devoção, numa tradição que passou da oralidade para a escrita e continua viva na identidade local.
Ainda de acordo com essa narrativa popular, o fidalgo, enfurecido, mandou prender o escravo pelo pescoço a um cavalo. O animal foi chicoteado e correu até ao lugar hoje conhecido como Campa do Preto, em Gemunde, onde, segundo a lenda, ficaram depositados os restos desse homem negro. É essa história que o povo foi transmitindo de geração em geração e que acabou por dar nome ao local.
A força dessa narrativa não desapareceu com o tempo. Em Gemunde, a Campa do Preto tornou-se lugar de devoção popular, romaria e identidade local, mantendo-se até hoje ligada à festa da Campa do Preto, também conhecida como Festa das Cerejas, que o Notícias Maia tem acompanhado em sucessivas edições.
Mas a história da Campa do Preto não vive apenas da oralidade. Uma das referências escritas mais importantes é Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, conhecido como Pinho Leal, militar e historiador português do século XIX, autor de “Portugal Antigo e Moderno”, uma vasta obra de carácter histórico e geográfico sobre localidades do país. É a Câmara Municipal da Maia, ao recuperar essa tradição escrita, que volta a citar Pinho Leal para enquadrar a antiguidade do culto e a intervenção das autoridades no local.
A própria Câmara da Maia, ao citar Pinho Leal, introduz, porém, o elemento que torna o caso mais complexo. Segundo essa documentação histórica reproduzida pelo município, as autoridades eclesiásticas e administrativas intervieram, mandaram escavar o local e realizaram uma averiguação. O resultado, segundo o texto publicado pela autarquia, foi que não apareceu ali qualquer resto humano, sendo usada a expressão de que não se encontrou “nem um osso de gato”.
Ou seja, a mesma tradição que preservou a lenda guardou também a notícia de que a campa nunca foi confirmada por prova material. Esse contraste entre a crença popular e a falta de comprovação física é precisamente um dos aspetos que mais distinguem a Campa do Preto dentro do património imaterial maiato.
Outra figura relevante para compreender a permanência desta narrativa é Augusto César Pires de Lima, advogado, professor, etnógrafo, filólogo e escritor nascido em Santo Tirso em 1888. O Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa identifica a sua obra “As lendas: O Santo Preto: Processo popular de canonização”, publicada em 1946, e o volume 4 de “Estudos etnográficos, filológicos e históricos”, de 1949, onde o caso é tratado como exemplo de santidade popular não oficial.
Mais tarde, a lenda voltou a ser lida por Joel Cleto, historiador, arqueólogo e divulgador de património, num episódio do programa “Caminhos da História”, do Porto Canal. Nessa abordagem, Joel Cleto explica que, em Gemunde, a figura do “escravo negro” acabou por se tornar, através da devoção popular, “um símbolo das virtudes e da defesa dos mais enfraquecidos”.
Essa dimensão simbólica ajuda a perceber porque é que a Campa do Preto continua a marcar a vida local. A Associação Beneficente da Campa do Preto, fundada em 1932, é apontada como responsável pela preservação do monumento e pela organização das festas e romaria, enquanto a tradição se mantém viva no espaço público, na toponímia e no calendário festivo de Gemunde.
A Campa do Preto permanece, assim, num território raro entre a lenda e a história. O que está documentado é a antiguidade da devoção, a permanência da festa e a importância da memória coletiva. O que continua por demonstrar é a verdade factual do episódio fundador tal como foi contado pelo povo. É nessa fronteira entre tradição oral, religiosidade popular e escrutínio histórico que assenta a singularidade da Campa do Preto, em Gemunde.


