Não foram precisas provas, nem sequer investigação, bastou um email enviado em abril de 2025, com acusações de violência doméstica atribuídas ao realizador Ico Costa para que o festival IndieLisboa cancelasse os dois filmes do realizador. O principal suspeito da denúncia, sabe-se agora, é um homem ligado ao meio artístico.
A mensagem foi enviada a dezenas de pessoas e entidades ligadas ao meio cinematográfico, em Portugal e no estrangeiro, bem como a uma página de Instagram associada ao setor, a partir de um serviço de email encriptado que permite anonimato. No conteúdo, o realizador era descrito como “agressor em série de mulheres”, sendo alegadas agressões verbais, físicas e psicológicas, bem como a existência de várias vítimas ao longo de pelo menos uma década. A autora da mensagem afirmava ter tido uma relação de seis meses com Ico Costa e dizia ter 28 anos e ser ex-estudante de cinema. No entanto, o realizador afirma não conhecer qualquer pessoa com essa identidade.
Apesar da gravidade das acusações, não foi apresentada qualquer queixa formal às autoridades. Ainda assim, o impacto foi imediato. Em poucos dias, o tema espalhou-se pelas redes sociais e pelo meio cinematográfico, levando o festival IndieLisboa a retirar da sua programação de 2025 a longa-metragem “Balane 3”, bem como outro filme produzido por Ico Costa.
A alegada autora das denúncias recusou sempre encontros presenciais ou contactos telefónicos com quem tentou confirmar a sua identidade. Chegou a ser sugerida a realização de um encontro com outras alegadas vítimas, numa associação ligada ao setor audiovisual, mas essa entidade não confirmou qualquer conhecimento da situação nem da existência de tal reunião.
Nos dias 19 e 20 de abril de 2025 foram enviados novos emails, incluindo para festivais internacionais. Paralelamente, terão sido criados vários perfis falsos em redes sociais com o objetivo de amplificar e difundir as acusações, sendo possível estabelecer ligações entre esses perfis.
Em junho, foi enviada nova comunicação com alegações de um episódio ocorrido na noite de 13 desse mês, em que a autora afirmava ter sido perseguida pelo realizador junto à sua residência. No entanto, segundo a defesa, Ico Costa encontrava-se nessa data em Marrocos, o que, de acordo com a mesma, inviabiliza a veracidade do relato.
A investigação aponta para a possibilidade de um esquema organizado e o principal suspeito da autoria das mensagens será um homem ligado ao meio artístico. Os factos em análise poderão enquadrar crimes como falsidade informática, denúncia caluniosa e difamação agravada.
O impacto do caso estendeu-se também ao percurso profissional do realizador. Em 2024, Ico Costa tinha sido distinguido com o prémio de melhor longa-metragem portuguesa no IndieLisboa. Em 2025, viu o seu filme afastado da competição, decisão acompanhada de um comunicado do festival que contribuiu para a ampliação mediática das acusações.
A defesa do realizador considera que a decisão do IndieLisboa teve um papel determinante na dimensão do caso, apontando que não terá sido feita uma verificação prévia das alegações. Posteriormente, mesmo perante novos elementos que colocariam em causa a veracidade das denúncias, o festival não assumiu publicamente qualquer erro, tendo apenas eliminado referências ao comunicado inicial.
A defesa afirma ainda desconhecer qualquer processo contra Ico Costa por suspeita de violência doméstica. Entretanto, o filme “Balane 3”, inicialmente afastado, acabou por estrear nas salas de cinema a 26 de fevereiro, cerca de um ano depois do previsto.


