Uma médica endocrinologista foi detida esta sexta-feira pela Polícia Judiciária por suspeitas de envolvimento num esquema fraudulento de prescrição de medicamentos comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde, causando um prejuízo de cerca de três milhões de euros ao Estado.
A endocrinologista Graça Vargas foi detida no norte do país no âmbito da operação “Obélix”, conduzida pela Diretoria do Norte da Polícia Judiciária (PJ), por suspeitas de burla qualificada e falsidade informática. A médica é considerada pelas autoridades como a maior prescritora nacional de medicamentos antidiabéticos utilizados para emagrecimento, como Ozempic, Victoza e Trulicity.
De acordo com a investigação, Graça Vargas terá prescrito mais de 65 mil embalagens destes fármacos a 1.914 utentes, dos quais 57% não tinham diagnóstico de diabetes mellitus tipo 2. A prescrição falsa permitia que estes medicamentos fossem comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) até 95%, representando um encargo para o Estado que a PJ estima ultrapassar os três milhões de euros.
Os dados analisados pelo centro de monitorização do SNS mostram que a médica acumulou, entre 2012 e 2023, valores de comparticipações superiores a 5,2 milhões de euros, destacando-se como a maior prescritora a nível nacional. Só em 2022, a endocrinologista terá emitido receitas no valor de 804.615 euros, e entre janeiro e fevereiro de 2025 prescreveu Ozempic 506 vezes, com comparticipações superiores a 72 mil euros.
O padrão de prescrição chamou a atenção das autoridades ao revelar consumos clinicamente impossíveis. Um dos utentes recebeu, entre 2012 e 2023, um total de 1.653 embalagens destes medicamentos, cerca de 23 embalagens por mês, o que, segundo a PJ, pode indiciar revenda.
A investigação aponta também para o envolvimento de outra médica, um advogado e uma clínica médica. Foram realizadas buscas em residências, gabinetes de contabilidade em Santa Maria da Feira e Lousada, um escritório de advogados, estabelecimentos de saúde e sedes de empresas em Albufeira e no Funchal, que poderão funcionar como estruturas de fachada.
A operação “Obélix” decorreu em articulação com a Autoridade Tributária, uma vez que o processo tem ligação a um outro inquérito relativo a fraude fiscal que envolve os mesmos suspeitos.
Médica fica em liberdade depois de pagar caução de 500 mil euros
A médica Graça Vargas, detida no âmbito de uma investigação da Polícia Judiciária por suspeitas de burla ao Serviço Nacional de Saúde, foi presente esta quinta-feira ao Tribunal de Instrução Criminal do Porto. A juíza de instrução decidiu aplicar uma caução de 500 mil euros, que terá de ser depositada no prazo de 30 dias.


