Daniel Pereira terminou o secundário e partiu para Cabo Verde numa missão de voluntariado da Delta Cultura. Conheça o testemunho deste jovem maiato.

Daniel Pereira tem 18 anos e logo após terminar o secundário, em Línguas e Humanidades, decidiu fazer uma pausa nos estudos durante um ano para se entregar a uma experiência de voluntariado internacional na Vila do Tarrafal, Ilha de Santiago, em Cabo Verde.

Cozinca

O agora voluntário conheceu a Delta Cultura através da associação portuguesa “Para Onde?” e embarcou sozinho nesta missão que “procura erradicar a pobreza através da educação”.

Daniel fez voluntariado internacional durante dois meses e meio e está agora de volta a Portugal, mas não exclui a hipótese de voltar a Cabo Verde. Conheça o testemunho deste maiato.

Notícias Maia (NM): O que te levou a fazer voluntariado internacional?

Daniel Pereira (DP): Era um grande objetivo meu participar num projeto de voluntariado internacional. Acontece que eu terminei o ensino obrigatório o ano passado e era complicado  parar dois meses e meio, durante esse período, para participar num projeto como este. Decidi que a altura ideal para o fazer seria depois de terminar o secundário. Comecei a procurar imensas organizações e fui em voluntariado através da associação portuguesa “Para Onde?” que envia voluntários. Fui analisando os projetos que eles tinham, inclusive em São Tomé e na Europa, mas foi de facto o projeto de Cabo Verde que mais me atraiu. Eu cheguei até à “Delta Cultura” através da parceira que esta ONG tem com a associação “Para Onde?”.

NM: Porque é que escolheste a Delta Cultura para embarcar nesta aventura?

DP: Foi principalmente por ser um projeto com crianças e pela atuação que é feita na própria sociedade Cabo Verdiana. A Delta Cultura, numa frase, procura erradicar a pobreza através da educação, mas claro que é complicado definir a ONG só nestas palavras. Além de terem um jardim de infância para os mais pequenos, há também um espaço para eles fazerem os trabalhos de casa quando saem da escola e uma sala de música e de artes. A questão do desporto também é fundamental e foi esse o principal objetivo da formação da Delta.

NM: O que é que vocês voluntários faziam em Cabo Verde?

DP: O objetivo dos voluntários era o ensino do português. Depois existe também outra grande dimensão que é a de dar acompanhamento às crianças. Elas vivem num contexto social um bocadinho diferente, com alguns problemas associados, e nós temos o trabalho de as ajudar a tentar perceber e a tentar resolver de certa forma esses problemas.

NM: Sentiste um grande choque cultural quando viste a realidade destas crianças?

DP: Sim e não. As crianças são bastante diferentes, também porque a própria educação delas não se assemelha à nossa. Uma das coisas para a qual eu não estava preparado foi a existência de violência infantil. Embora de forma, muitas vezes, indireta, e apesar de não vermos que isso acontece, conseguimos perceber pelo comportamento das crianças que a violência infantil está presente.

NM: Essa violência ocorria dentro do seio familiar?

DP: Sim. Algumas crianças contavam-nos. Eu como estive a trabalhar no jardim de infância, notei que quando a criança urinava nas calças durante o sono, ou quando riscava a roupa, começava a chorar. Não porque aquilo aconteceu, mas porque sabia que quando chegasse a casa ia sofrer consequências.

NM: Qual foi a duração deste voluntariado internacional?

DP: Eu estive lá durante dois meses e meio.

NM: Esta experiência teve algum custo?

DP: Sim. Esse é, se calhar, o grande problema das pessoas que querem fazer voluntariado internacional. Infelizmente tudo é pago pelo voluntário, desde voos, a estadia, ao custo dos testes covid, a medicamentos e a consultas, tudo era por nossa conta. Eu fui com 18 anos, mas foi há um ano atrás, com 17, que eu decidi fazer este Gap Year e o meu grande objetivo era ir com o meu dinheiro. Os meus pais sempre disseram que me apoiavam, mas eu também gostava de ter eu o meu próprio projeto.

NM: Foste sozinho?

DP: Fui sozinho sim.

NM: Criaste laços de amizade nesta viagem?

DP: Imensos. Não só com os colegas voluntários, mas também com as crianças. Eu fui em março com um outro voluntário e penso que lá já estavam mais dois. Regressei agora em junho.

NM: Manténs o contacto com estes colegas voluntários e com as crianças de Cabo Verde?

DP: Sim, tanto com os meus colegas, como com as crianças. Elas têm internet em alguns sítios e então, sempre que podem, mandam-me mensagens.

NM: Também ensinavas a língua portuguesa ou fazias só o acompanhamento das crianças?

DP: Nós tínhamos uma sala específica para o ensino do português, que funcionava mais através de atividades e de jogos. Embora eu estivesse sempre um pouco separado, porque estava mais ligado à área do jardim de infância. Acabei por desenvolver outro tipo de atividades com crianças entre os 4 e os 5 anos.

NM: Que idades tinham as crianças que foram ajudar? 

DP: Nós dávamos apoio até ao ensino secundário, mas a média de idades era entre os 12 e os 15 anos, embora houvessem mais novos e mais velhos. Havia jovens da minha idade.

NM: O ensino português é a nível mundial conhecido por ser um bom ensino. Sentiste essa diferença quando chegaste a Cabo Verde?

DP: Eu não senti muito isso, porque o ensino em Cabo Verde segue um pouco os moldes do ensino português, embora com algumas alterações do próprio país.

NM: Agora que estás de volta, sentes falta do que viveste em Cabo Verde?

DP: Sim, sinto imensas saudades de ter aquela rotina, de estar com aquelas crianças, de as ouvir, brincar com elas, de as ajudar. Foram dois meses, e nesses dois meses criamos realmente laços. É mais do que um simples estar lá, acaba por ser uma amizade.

NM: Gostavas de voltar?

DP: Sim. Todos os dias penso numa forma de lá voltar nos próximos tempos. Não sei se será possível em voluntariado, mas pelo menos voltar a Cabo Verde.

NM: Num futuro próximo?

DP: No próximo ano eu vou começar a estudar novamente, então vai depender também da minha disponibilidade, mas espero que com este meu pequeno testemunho consiga motivar outros jovens.

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