A mobilização pública em torno de André Ferreira ganhou novo fôlego, com a petição que pede o desbloqueio urgente do acesso ao medicamento Voranigo a alcançar as 2 mil assinaturas. O maiato, de 35 anos, continua a aguardar uma resposta no processo, numa altura em que o Infarmed mantém em avaliação o financiamento da terapêutica para utilização nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde.
André Ferreira é um dos doentes em Portugal com glioma grau 2, um tipo de tumor cerebral para o qual surgiu uma nova opção terapêutica. O medicamento em causa é o Voranigo, cuja substância ativa é o vorasidenib, desenvolvido pela farmacêutica francesa Servier. O fármaco foi aprovado em agosto de 2025 nos Estados Unidos e, em setembro do mesmo ano, pela Agência Europeia de Medicamentos.
No contacto entre o jornal Notícias Maia e a família de André Ferreira, foi revelada a existência da petição pública que pede o acesso urgente ao medicamento. Entretanto, a iniciativa reforçou o apoio em torno do caso e já chegou às 2 mil assinaturas.
O custo elevado do tratamento faz com que o acesso dos doentes dependa de financiamento estatal. Por esse motivo, a médica que acompanha André Ferreira no Hospital de São João apresentou um pedido de Autorização de Utilização Excecional, recusado pelo Infarmed a 15 de dezembro. Segundo a resposta citada pelo Jornal de Notícias, a autoridade do medicamento justificou a decisão com o facto de não estarem reunidas as condições para a abertura de um Programa de Acesso Precoce, nomeadamente pela ausência de enquadramento legal para apreciar aquele pedido de autorização excecional.
Apesar dessa recusa, o Infarmed confirmou que a farmacêutica submeteu também em dezembro um pedido de Avaliação Prévia Hospitalar, ou seja, o processo de financiamento para utilização do medicamento nos hospitais do SNS. De acordo com a informação avançada, esse processo encontrava-se em avaliação e a avaliação clínica tinha sido concluída no final de fevereiro de 2026. Segundo o regulador, no âmbito do processo de Avaliação de Tecnologias de Saúde, o dossiê seguiu depois para avaliação económica e, posteriormente, para a fase final de decisão, sem abordar casos concretos.
Estes doentes têm de ser operados para remoção do tumor, mas a remoção integral é rara e a doença tende a voltar a crescer. Nesses casos, os tratamentos passam por radioterapia, quimioterapia e, em algumas situações, novas cirurgias. Segundo é explicado, o Voranigo permite retardar o crescimento do tumor e melhorar o tempo de vida saudável.
André Ferreira descreve um quotidiano marcado pelas limitações impostas pela doença. O doente afirma que, com o crescimento do tumor, pode sofrer convulsões, o que o impede de realizar tarefas simples do dia a dia. Entre as dificuldades relatadas, refere não poder ir sozinho ao parque com as duas filhas, de 1 e 5 anos, nem conduzir ou trabalhar.
Depois da operação realizada em junho, André Ferreira diz que não foi chamado para consulta pós operatória e que teve três crises convulsivas. Segundo o próprio, só em novembro soube que o cancro tinha voltado a crescer e foi nessa altura que a médica lhe falou do novo medicamento.
A Associação Portuguesa do Cancro no Cérebro está a acompanhar o processo. De acordo com o presidente Renato Daniel, citado na notícia, a associação está a fazer a articulação com os órgãos responsáveis, com a indústria farmacêutica e com o regulador, sublinhando que se trata de um processo complexo e que a estrutura tem mantido contacto com os doentes.
Os dados referidos indicam que existem cerca de 60 doentes por ano em Portugal com esta situação clínica, enquanto no Reino Unido esse número ronda os 400.
Vítor Veloso, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, lamenta que a liga não esteja representada no Infarmed na tomada deste tipo de decisões, embora admita que o regulador também aprova medicamentos que outros países mais desenvolvidos rejeitam.


