A questão foi suscitada num debate entre jovens e juventudes partidárias que ocorreu no passado dia 3 de Outubro, no Fórum Jovem da Maia.

É recorrente pensarmos e afirmarmos que os jovens de hoje não se interessam pela polis, pela atividade política e pela cidadania.

É quase uma ideia assente que os jovens raramente votam, que não fazem ativismo, não estão informados sobre os seus direitos nem sobre o se passa no país e no mundo e não têm uma opinião crítica sobre a sociedade.

Mas o que muitos esquecem ou ignoram é que a geração dos millennials ficará para a história por ter sido a geração obreira da luta do século.

A geração que se ergeu para gritar “basta” de destruírem o nosso planeta. Por se insurgir contra os políticos trapaceiros que põem em xeque o nosso futuro, ao contribuirem para agravar o problema das alterações climáticas, da ameça à integridade das nossas florestas, oceanos e ecossistemas em nome dos lucros dos grandes grupos económicos e das multinacionais.

As greves climáticas estudantis e o impacto do papel desempenhado por ativistas como Greta Thunberg são a prova de que os jovens não apenas se interessam pela intervenção cívica e política, como se envolvem ativamente nela, tanto em Portugal como lá fora.

Por outro lado, seria injusto fazer uma comparação do período atual com o momento histórico de grande inquietação social que eclodiu na Revolução de Abril de 1974.

No período dos anos 60 e 70 do séc. XX, uma avalanche de pessoas das mais variadas origens, idades, estratos sociais, opiniões políticas e ideológicas e visões filosóficas abraçaram a intervenção política e cívica nas escolas e universidades, nos grupos culturais e clubes desportivos, nos sindicatos, nas associações e comissões de moradores, nas empresas, nas cooperativas, nas fábricas e em todo o lado, como não acontecia há décadas.

Essa autêntica explosão deve-se ao “efeito rolha” de 40 anos de mordaça imposta pela ditadura fascista de Salazar e Caetano, que apesar dos esforços não conseguiu travar esta vontade imensa de expressar o livre pensamento e de mudar o país e o mundo.

As pessoas queriam muito contribuir com o seu suor e luta para concretizar as palavras de ordem da Revolução de Abril (paz, pão, habitação, saúde e educação) e abrir caminho para, a pouco e pouco, construir uma sociedade socialista onde não houvesse mais exploração da humanidade e pudessemos viver em paz.

Mas após o 25 de Novembro, o desânimo instalou-se na geração de Abril. Acabou a ditadura e a guerra colonial, mas as conquistas sociais dos trabalhadores e do povo foram sendo revertidas (a terra para quem a trabalha, o direito à habitação condigna, os direitos laborais, etc.) e quase tudo voltou ao que era dantes ou não chegou a evoluir para um patamar decente.

Os poderosos grupos económicos que viviam à sombra e à conta do Estado durante o fascismo foram reconstituídos, as nacionalizações foram revertidas, mesmo nos setores estratégicos, a corrupção e a promiscuidade entre a República e os interesses económicos instalaram-se, causando um sentimento de profunda injustiça e ao mesmo tempo de impotência.

As políticas neoliberais trouxeram o desemprego, a pobreza e a precariedade de volta, impuseram-nos cortes nos serviços públicos essenciais e as frustrações que essas opções austeritárias geraram não foram tão canalizados para uma reação de resistência a esses retrocessos como foram desviados para o mero entretenimento ou apaziguamento do espírito (os famosos “3 efes”).

Aqui chegados, cumpre-nos questionar o que pode ser feito para recuperar a motivação para a participação popular na democracia em todas as suas vertentes?

A melhor forma de reverter essa tendência de afastamento entre a população – em particular os jovens – e quem nos representa nas instituições democráticas, é educar em democracia. A democracia participativa deve começar desde muito cedo, com os agentes educativos a orientarem os alunos para o desenvolvimento do espirito crítico e para a participação direta nos assuntos do seu interesse.

Mas isso só não chega. É necessário voltar a colocar na agenda dos partidos políticos as aspirações do nosso povo e dos nossos jovens, ouvir as pessoas comuns sobre o que as preocupa e que soluções querem e verdadeiramente representar as suas causas, nomeadamente aprofundando a democracia e concretizando os direitos económicos, sociais e culturais previstos na Constituição da República Portuguesa.

Os cidadãos são exigentes e é preciso que se revejam na exigência dos representantes eleitos, quer nas autarquias, quer no poder central.

Assegurar o acesso ao ensino gratuito e de qualidade, defender quem vive do seu trabalho, proteger o direito à saúde, não deixar ninguém para trás e colocar o problema climático no topo das prioridades é uma obrigação dos governantes e não um favor a alguém que se pode trocar por um voto.

Enquanto isso não for feito, estaremos somente a alimentar a ganância de alguns e a aumentar o fosso entre as elites e o povo trabalhador enquanto assistimos à nossa extinção coletiva enquanto espécie.

Jorge Santos
Advogado estagiário e membro da Comissão Coordenadora Concelhia da Maia do BE

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