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António Costa faz e diz o que quer e os jornalistas que se portem bem. É esta a leitura imediata que se pronuncia da penitência que diretores, jornalistas e figuras públicas se apressaram a fazer, por verem divulgadas imagens de declarações do Primeiro-Ministro.

Notícias Maia

O Primeiro Ministro de Portugal levita acima do escrutínio aos políticos e figuras de relevo público. Costa encanta quase todos. Encanta o PCP, o BE, o PSD e encanta jornais e jornalistas. Quase todos querem agradar a Costa.

A perigosa relação entre poder político e comunicação social raras vezes se tornou tão visível como neste triste episódio, que lembra o tempo de José Sócrates, o animal feroz que concebia acordos, na tentativa de controlar jornais e pressionava quem ousasse criticar o seu governo.

É errado que as declarações do mais importante membro do Governo, por terem sido obtidas em off-the-record, não tenham interesse público.

Sem jornalismo não há democracia e divulgar matéria de interesse público é uma obrigação da profissão. Não pode a matéria noticiosa ser ajustada, enfeitada ou apagada para agradar ao entrevistado, porque isso é trabalho de relações públicas.

António Costa revelou, em off, sobre o grave caso do Lar de Reguengos, que o problema “é que o presidente da ARS [Administração Regional de Saúde] mandou para lá os médicos para fazerem o que lhes competia e os gajos, cobardes, não fizeram.”

A questão do contexto é crucial: António Costa concedeu uma entrevista ao Expresso, pouco tempo depois do jornal se ter envolvido numa polémica com a ministra do trabalho e solidariedade, Ana Mendes Godinho. A ministra acusou o jornal de retirar uma frase do contexto, “dando assim a entender que o governo não considera graves os números de mortes em lares em Portugal, é um ato grave e que, como tal, deve ser desmentido.”.

É precisamente no seguimento desta quezília, que o Primeiro-Ministro concede esta entrevista. É notável a necessidade de agradar a Costa. A enérgica reação da direção do jornal à divulgação das imagens captadas em off, demonstrou um excesso de preocupação com a possibilidade de António Costa ter ficado desconfortável.

O argumento de que as informações foram prestadas em off não serve para tudo, nem pode ser analisado cegamente.

O off-the-record é uma situação recorrente e específica entre fontes e jornalistas e que não deve ser confundido com informação obtida em trabalho jornalístico. Existe um vínculo de confiança de vital importância para o bom trabalho do jornalista.

Contudo, a situação de off-the-record, não raras vezes, é objeto de reflexão pela fina linha entre o que deve, ou não, ser divulgado.

Tratando-se de um segredo dentro de um contexto de divulgação, em que um agente consagrado como fonte divulga informação ao jornalista, que não pretende ver publicada, a matéria não pode ser considerada como um capricho da fonte.

Em substância, informação é informação, seja em off ou on. O que define a publicação da mesma, primariamente, é o seu interesse público e o interesse público sobrepõe-se assim, sempre, à forma como a fonte quer passar a informação.

Levanta-se a natural questão da ética do jornalista. Aqui e bem, o jornalista que obtém informação em off, não a deve, por princípio, publicar. Pressupõe-se que a fonte quer informar melhor o jornalista, cabendo ao profissional a missão de perceber se está a ser manipulado.

O Primeiro-Ministro de Portugal considerou aqueles médicos como cobardes. Esta informação coloca-se entre a sobreposição do interesse público e da ética. Os jornalistas deveriam ter questionado António Costa sobre as razões daquele comentário. Não há dúvida de que aquele facto era a entrevista e não deveria ser ignorado.

É preocupante que já depois das imagens pertencerem ao domínio público, diretores de jornais de âmbito nacional tenham vindo a terreiro defender António Costa e argumentar que a matéria não deveria ser notícia. Não há dúvida nenhuma de que se trata de informação de interesse público.

Neste domínio, Portugal é pródigo. Não faltam editoriais, de âmbito nacional e regional, arrogados de defensores da classe, que pouco têm de defesa do jornalismo e das boas práticas da profissão. Por muito que se tentem dourar, o leitor distingue-os bem.

Se não for de outra maneira, dada a devoção que tanto se esforçaram por demonstrar, que aprendam com o próprio António Costa, em declarações proferidas em 2016: “Já recordei aos membros do governo que, enquanto membros do Governo, nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo e, portanto, devem ser contidos na forma como expressam as suas emoções, e se é assim à mesa do café quanto mais nestes novos espaços comunicacionais que hoje não são de conversa privada nem reservada e tornam-se naturalmente públicos”.

Aldo Maia

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