Uma tartaruga-comum reabilitada em Portugal percorreu 9 203 quilómetros em 13 meses após ser devolvida ao mar, transformando o seu percurso num caso de estudo internacional sobre migração e conservação de tartarugas marinhas.
Os pescadores que a encontraram perceberam depressa que algo não estava bem. A tartaruga-comum, da espécie Caretta caretta, mal conseguia subir à superfície para respirar. Trazia no corpo mais do que o cansaço da corrente. Havia um anzol perdido no estômago e um diagnóstico que chegaria pouco depois, anemia e um estado geral tão frágil que só deixava em hipótese cuidados urgentes. Seguiu para o Porto d’Abrigo, um centro de reabilitação de fauna marinha do Zoomarine Algarve.
Ali, Salina trocou o mar por tanques de água salgada e mãos humanas. Durante doze meses, uma equipa de veterinários e biólogos acompanhou-lhe cada movimento, cada exame, cada pequena vitória. Recuperou peso, força e apetite, até voltar a rondar os 52 quilos. Aos poucos, aquela tartaruga que tinha chegado prostrada começou novamente a nadar com outra energia, como se fosse testando a possibilidade de regressar ao oceano.
Em julho de 2022, chegou o dia da despedida. Na praia, entre técnicos e curiosos, Salina estava pronta para voltar a casa. Antes de reaprender a linha do horizonte, houve ainda um último gesto humano. Na carapaça, a equipa fixou um pequeno transmissor de satélite. Um aparelho discreto, pensado para aguentar meses de mar, que permitiria seguir, à distância, a vida daquela tartaruga para lá do limite da rebentação.
Quando entrou na água, não houve garantias. Só a sensação de dever cumprido e uma pergunta em silêncio: conseguiria sobreviver, depois de tudo?
Seis dias depois, chegou a primeira resposta. Os dados do emissor mostravam que Salina já tinha atravessado o Estreito de Gibraltar e entrado no Mediterrâneo. De repente, aquele ponto num mapa deixou de ser apenas um animal resgatado no Algarve. Tornou-se personagem de uma viagem que ninguém sabia até onde iria.

Nos meses seguintes, o sinal ia desenhando uma linha irregular em ecrãs de computador. A tartaruga passou pelo mar de Alborão, contornou costas de Marrocos e Argélia, aproximou-se do arquipélago das Baleares, cruzou a Sardenha, navegou entre a Sicília e a Calábria. Sem saber, visitava alguns dos sítios mais importantes para tartarugas marinhas no Mediterrâneo, zonas de alimentação e de passagem onde o mar ainda oferece comida suficiente para sustentar espécies ameaçadas.
Enquanto isso, no Algarve, a equipa do Porto d’Abrigo acompanhava cada movimento. Nas redes sociais do parque, Salina começou a aparecer como protagonista de atualizações periódicas, com mapas, quilómetros e pequenas notas sobre a rota. Para quem a tinha visto de perto, aqueles dados eram mais do que números. Eram a prova de que a libertação não tinha sido um salto no escuro.
Ao fim de treze meses, o contador marcava 9 203 quilómetros percorridos desde o momento em que deixou a costa algarvia. O transmissor deixou de emitir pouco depois, situação frequente quando as baterias se esgotam. Até aí, porém, os registos confirmavam que a tartaruga se tinha mantido viva pelo menos 392 dias após a reabilitação, enfrentando tráfego marítimo intenso, lixo plástico e zonas de pesca que todos os anos ameaçam a sobrevivência de milhares de animais.
A viagem longa de Salina não ficou apenas guardada em ficheiros internos. Serviu de base a um estudo científico que combinou o percurso registado por satélite com análises genéticas, procurando perceber melhor de onde poderia vir aquela tartaruga e como se ligam as populações do Atlântico e do Mediterrâneo. Os resultados não são definitivos, mas apontam duas possibilidades: Salina poderá ter nascido em praias atlânticas e migrado em jovem para o Mediterrâneo ou ser originária daquela região, talvez da Calábria, precisamente a zona onde acabou por permanecer mais tempo.
Seja qual for a origem, há uma certeza que o caso deixou mais nítida. As águas ao largo do Algarve funcionam como corredor para tartarugas de diferentes proveniências. São ponto de passagem entre mundos, linha de encontro de rotas que a ciência ainda está a aprender a desenhar com rigor.
Vistas à distância, as coordenadas da viagem de Salina são um caso de estudo entre muitos. Mas, para quem a resgatou no Guadiana e a tratou durante um ano inteiro, aquela tartaruga é a prova concreta de que cada animal reabilitado pode devolver ao mar mais do que uma vida. Pode trazer também informação que ajuda a perceber melhor como proteger uma espécie que, em seis das sete variantes existentes, continua ameaçada.
No fim, talvez seja essa a verdadeira história de Salina. Uma tartaruga que quase ficou presa para sempre em redes de pesca, mas acabou a traçar, sozinha, uma linha invisível entre o Algarve e o Mediterrâneo, deixando para trás um rasto de dados que hoje vale ouro para quem tenta garantir que outras como ela continuam a nadar.


