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Rui Redol é proprietário do Restaurante Ferradura, no Castêlo da Maia, e, desde maio, tem vindo a desenvolver várias ações solidárias para ajudar quem precisa.

A pandemia levou muitas pessoas a passar necessidades e, no Castêlo da Maia, Rui Redol não fechou os olhos a isso.

Cozinca

Com 58 anos, o proprietário do Restaurante Ferradura, no Castêlo da Maia, é voluntário no grupo Anjos Amigos, que trabalha com o sem-abrigo no Porto, há cerca de seis anos. Foi desta experiência que Rui Redol retirou a vontade em ajudar a sua comunidade.

Assim, de 7 de maio a 5 de junho, com a ajuda de várias entidades, foi possível oferecer 2629 refeições completas a pessoas carenciadas.

Ainda em 2020, desafiou também amigos e conhecidos a doar brinquedos de criança que já não tivessem utilidade. Um movimento solidário que arrecadou mais de 2 mil brinquedos.

Agora, Rui Redol faz parte da comunidade Sopa Para Todos, uma ideia que pretende oferecer sopas a quem precisa através da doação de todos. É o único restaurante do concelho da Maia que faz parte desta iniciativa.

Conheça o testemunho deste maiato ao NOTÍCIAS MAIA.

Notícias Maia (NM): Como é que surge a ideia de oferecer refeições?

Rui Redol (RR): Isto surge porque eu faço voluntariado há cerca de seis anos num grupo que se chama Anjos Amigos e que trabalha junto dos sem abrigo no Porto. Damos alimentação completa, roupa, sapatos, inclusive temos uma cabeleireira a cortar o cabelo, uma médica e enfermeiros. No fundo somos um grupo organizado que já está habituado a fazer isto durante o ano todo, todas as terças e quintas-feiras, sem falta. Quando fechámos o restaurante em março, fui-me apercebendo que havia aí muita gente a começar a passar algumas dificuldades. E como conheço esta terra há muitos anos, já moro aqui desde os 13 anos, tenho muito amigos, e achei que poderia dar início a uma ação para poder ajudar esta gente.

NM: E no fundo acabaram por ajudar muitas pessoas.

RR: Durante o mês oferecemos 2629 refeições completas. Trabalhámos em sistema take-away com os devidos distanciamentos, desinfeção das mãos, e até tínhamos uma enfermeira para nos ajudar. Tivemos o apoio da Junta, da Câmara e de inúmeros amigos, anónimos, e empresas que se disponibilizaram a ajudar. Também o senhor padre da freguesia anunciou na igreja que estávamos a dar comida a quem precisasse. Nunca fizemos perguntas, a ideia era dar, e se alguém cá vem, é porque precisa.

NM: E todas as refeições eram confecionadas aqui e entregues aqui no espaço em frente.

RR: Sim, eram confecionadas aqui no restaurante. E todos os meus empregados foram solidários com esta ideia, voluntariaram-se para ajudar. E realmente isso foi uma coisa que me marcou muito pela positiva.

NM: No trabalho dos Anjos Amigos notaram que havia mais gente a precisar de ajuda?

RR: Muito mais. Está muito mais gente na rua e a dificuldade de resolver o problema dos sem-abrigo também se vai agravando. Não há duvida nenhuma que a Câmara Muncipal do Porto tem feito de tudo para tentar tirar os sem-abrigo da rua, mas não é fácil porque o sem-abrigo é uma pessoa muito especial, não quer regras nem quer horários.

NM: Quem é que vem buscar a comida?

RR: Há três tipos de pessoas a virem buscar a comida. Temos aqueles já referenciados, conhecidos por toda a gente. Depois também há aquelas famílias que já passavam dificuldades mas que, com a pandemia, a situação agravou-se. E um outro grupo de pessoas que não vinham diretamente para a fila e ficavam à espera que não estivesse quase ninguém para vir.

NM: Qual é a maior lição que tira deste trabalho de voluntariado?

RR: Das maiores lições que eu tiro é que há muita gente de bom coração. Gente boa e solidária e que não pensa duas vezes para ajudar. Aliás, este projeto que nós temos agora das sopas nasceu exatamente por causa disso, pelas lições que fomos tirando ao longo do tempo.

NM: Mas ainda antes de me falar desse projeto das sopas, gostava que me explicasse como surgiu a ideia de doar brinquedos a crianças no Natal.

RR: Eu andei a arrumar o armazém e encontrei muitos brinquedos que eram do meu filho, e que já tem 18 anos. Então pensei que podia dar isto a outras crianças miúdos. Depois ocorreu-me a ideia de falar com amigos porque também eles deveriam ter estes brinquedos dos filhos. E foi assim, de um dia para o outro, publiquei no Facebook, fiz meia dúzia de telefonemas, e numa semana enchi o bar todo de brinquedos. A ideia foi tão boa que no Natal tínhamos 850 sacos com três brinquedos dentro.

NM: E a quem deram esses brinquedos?

RR: A quem cá veio. Demos aqui à porta 450 sacos às crianças. Um amigo montou aí uma grande aparelhagem, umas grades para fazer circuito e até tínhamos dois Pais Natal.

NM: E os brinquedos que sobraram?

RR: Foram para associações de solidariedade, aqui na Maia mas também em Gaia.

NM: E depois destas duas ações, tem agora um projeto onde oferece sopa a quem precisa. Como é que as pessoas podem ajudar?

RR: Este projeto das sopas foi o único em que eu aceitei que as pessoas pagassem. Porque tinha muitos amigos que queriam ajudar mas, como eu só aceitava alimentos ou os brinquedos, não conseguiam. Então juntei-me a um projeto a nível nacional que se chama “Sopa Para Todos” e onde é possível deixar uma sopa paga para quem precisar e vier levantar. Nós cobramos 1,5€ por cada sopa e a pessoa que quer contribuir pode fazer transferência ou pagar por MB Way. E todas as semanas eu partilho o saldo que tenho para estas sopas. Isto é, se foram pagas mais sopas do que as que foram oferecidas, o saldo salta para a semana seguinte.

NM: E quando é que começou este “Sopa Para Todos” no restaurante?

RR: Há cerca de dois meses.

NM: E em média quantas pessoas vêm?

RR: Nós estamos a dar em média umas 170/180 sopas por semana.

NM: E se o saldo ficar negativo?

RR: Se estiver negativo ninguém deixa de receber uma sopa. Até porque, quando comecei, também ninguém estava a contribuir, era só o restaurante. Aliás, como restaurante, oferecemos sempre 150 sobremesas para os sem-abrigo no Porto.

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