1.- Numa cidade, como a da Maia, quando decorrem situações anómalas, como as que temos vindo a ver, não podemos ignorar. Se as pessoas fazem as cidades, então o tecido que as constitui são das pessoas, e como pessoas devem ser tratadas. Acontece, porém, que nem sempre é assim. Existem empresas que colocam a sua economia, isto é, ter menos lucros ou mais lucros, conforme as circunstâncias, descartando as pessoas que fazem a cidade. É de ficar estupefacto que uma empresa, dona de um pavilhão desportivo, e que patrocina todas as festas, onde se bebe, e bem, à sombra do COVID-19, resolva menosprezar o direito de quem com as suas mãos contribuiu para o pavilhão e o patrocínio das festas, descartando-as. Diríamos que a “dispensa” de pessoas, são para essa empresa – certamente para outras da Maia -, absolutamente secundárias, partindo do pressuposto que quem manda é a economia, a cidade é a economia, e as pessoas coisas abstratas a quem, certamente, ainda chamam de “recursos humanos”. Assim sendo o centro da cidade é a “economia” – que talvez até seja economicismo -, e que esta é a dona das pessoas, neste caso dos seus trabalhadores. Uma empresa que trata assim quem lhe dá a consistência, não pode ser da cidade, porque a cidade são as pessoas. Certamente até refere a sua cultura empresarial, quando não há “cultura empresarial”, esta é, e só é, uma parte da cultura da cidade. Por isso, a cidade é que lhe dá a força da cultura, levando para lá as suas pessoas.

Cozinca

2.- Parafraseando a Norma NP ISO 26 000 (Norma Portuguesa -NP – do Comité International Organization for Standardization -ISO) a NP 4522 (Norma Portuguesa -NP), defende que uma empresa, para ser empresa, com responsabilidade social, o quer dizer que tem “ responsabilidade da organização pelos impactes das suas decisões e atividades na sociedade e no ambiente, através de um comportamento ético e transparente que contribua para o desenvolvimento sustentável, incluindo a saúde e o bem-estar da sociedade; tenha em conta as expectativas das partes interessadas; esteja em conformidade com a lei aplicável e seja consistente com as normas de conduta internacionais; esteja integrado em toda a organização e seja praticada nas suas relações”, e, para que não exista ninguém distraído, as “partes interessadas”, são a “pessoa ou grupo que tem interesse em qualquer decisão ou atividade da organização”. E para que não se diga que o “despedimento”, que é sempre seletivo, logo nunca inclusivo, é derivado ao COVID-19, pelo menor consumo dos seus produtos a mesma norma refere que uma organização familiarmente responsável é aquela que “desenvolve , incorpora, implementa e dissemina políticas de boas práticas de conciliação entre a vida profissional, familiar e pessoal de trabalhadores e trabalhadoras, promovendo simultaneamente, as outras questões da responsabilidade social, nomeadamente uma efetiva igualdade de género.”

3.- Ao colocar “na rua” 10% dos seus trabalhadores esta empresa não sabe o que é a cidadania, a construção da cidade, que são as famílias que forjam e constroem a cidade e que ao “dispensar” trabalhadores não dissemina boas-práticas de da vida profissional, familiar e pessoal dos seus trabalhadores. No limite constitui uma “empresa inútil” para a cidade, embora possa ter pago, à custa também destes trabalhadores, somas astronómicas, para o que diz ser o apoio à cultura. Colocar acima dos trabalhadores os “resultados económicos”, que podem ser mais ou menos uns milhares à custa de quem se empenhou para construir a empresa, e a cidade, é uma irresponsabilidade social. Que aposte em muita coisa, no ambiente, em ribeiras que lhe passam à porta e que contaminou, em plantar ou não árvores, em favorecer instituições de bem-fazer, se tira o pão do dia a dia aos seus trabalhadores, é além do mais uma estratégia irracional, comandada nas bolsas, de quem faz dinheiro, e o computador que trabalhe.

4. – Esta cidade da Maia, que tanto se orgulha de ser uma cidade exportadora, de grande capacidade empregadora, de tantas e tantas micro empresas que nem um trabalhador foi despedido, não pode calar-se perante uma ignominia de gestão que coloca em causa trabalhadores, cujo único defeito foi trabalharem, e nem um mínimo contribuíram para diminuição de vendas, nem muito menos para o COVID-19.
Não sei se o município da Maia ficou calado, mas não é de ficar, porque não constrói cidade. Não sei se as forças que podem ser determinantes para que tais despedimentos não tenham lugar se o fizeram ou não. Não sei se a Igreja tomou posição. Mas é determinante obstar a que tais despedimentos aconteçam.
A cidade são as pessoas, não são economia sobre as pessoas. E se não for assim, diz o papa Francisco, estamos perante uma economia que mata.

Joaquim Armindo

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