Para atravessar a Serra da Arada é preciso enfrentar o Portal do Inferno, a quase 1000 metros de altitude.

A Estrada do Portal do Inferno desbrava a serra que parece não ter fim. A dado momento dá-se a sensação de que se está em nenhures ou algures no fim do mundo. Estamos no Portal do Inferno. Dizem por ali que o diabo se esconde naquelas curvas e contracurvas.

O Portal transmite uma sensação vertiginosa, misturando a sensação de opressão com uma beleza angustiante. A grande altitude, por entre abismos, a passagem faz-se através de uma estreita e íngreme estrada com vista para a Serra de São Macário ou para a Serra da Freita. Os ventos são fortes e assustam facilmente.

Pelas indicações do GPS, há um desvio na Estrada do Portal do Inferno que nos leva até Drave. Confesso ser desconhecedor destas serras e do Arouca Geopark, mas pelo que descobri numa pesquisa rápida durante a viagem, pareceu boa ideia conhecer a tal aldeia.

Drave encontra-se desabitada desde 2000. O virar de milénio levou consigo o último habitante, Joaquim Martins. É conhecida como a aldeia mágica. O que não se espera é que o encantamento da aldeia em ruínas seja o de tentar ficar com os visitantes.

A rua que conduz até quase à entrada de Drave é estreita e sinuosa. Sem nenhuma indicação vertical ou horizontal, o guia é o GPS. São pouco mais de meia dúzia de km. O caminho está em condições miseráveis, em terra batida ou gravilha, carregado de buracos e desníveis. O efeito da beleza experienciada há apenas uns minutos atrás, é paulatinamente substituída por apreensão.

Não se engane, aquela rua é mais diabólica do que a Estrada do Portal do Inferno. Nunca fica melhor, é sempre a descer.

O GPS indicou o caminho, só não indicou que o piso molhado não ajudava no caminho de volta para o Portal do Inferno. Sem qualquer sinalética que indique as parcas condições de rodagem, Drave é uma aldeia só com ida. O inferno, na verdade, fica no caminho para o pequeno vale onde a aldeia encaixa.

O local é fantasmagórico, sem rede, sem água canalizada e sem gente. Drave existe ao som de um riacho e do vento que sopra por entre a imensidão das montanhas que a abraçam. Se gosta de comungar com a natureza, é uma experiência recomendável.

É fácil de compreender a opção do Corpo Nacional de Escutas em fazer ali uma Base Nacional. O que não se percebe é que o inspirador desapego aos nossos tempos seja levado tão longe, ao ponto de se esquecer a sinalética rodoviária.

O caminho, entende-se depois de lá estar, é pedonal. Na primeira subida do trajeto de volta foi impossível vencer o desnível da estrada. O carro simplesmente não conseguia ultrapassar o íngreme obstáculo. A magia de Drave fez-se sentir.

O Município de Arouca aproveita o turismo para fixar população à força. Uma gestão completamente amadora de um ponto turístico. Um aviso no início da rua evitaria muitos desassossegos. Se visitar Drave, não vai encontrar sinalização que o indique, mas o caminho faz-se a pé.

De automóvel atolado e com a noite a cair, sai-se para a serra de telemóvel no ar à procura de rede. Percorre-se o tal caminho pedonal até finalmente se encontrar sinal. Contacta-se a seguradora. Nada feito. Só mesmo os bombeiros é que lá vão. Precisam de um carro pesado e estão a mais de 55 km. Demoram mais de uma hora.

Já era de noite cerrada quando o 4×4 chegou equipado com um guincho e força necessária para vencer a magia de Drave. Puxado por um todo terreno que parecia uma máquina de guerra, por entre uma estrada que se faz entre ribanceiras com dezenas de metros de profundidade, o descanso só chega quando se volta ao Portal do Inferno. Está-se melhor ali, onde o diabo se esconde.

Dizia um dos operacionais que ser segunda-feira foi azar, já que “ao domingo está sempre lá o reboque”. O homem desabafa ainda que, dada a “quantidade de gente que ali vai”, não se percebe como é que ainda não se reabilitou minimamente a estrada, ou no mínimo, se sinalizou o local.

Ah! E a fatura, essa veio por mail.

Aldo Maia, Diretor

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