Há eventos que ultrapassam a ficção. O anúncio da final da Champions é um registo de surrealismo público, capaz de fazer corar de vergonha qualquer cidadão com um pingo de bom senso.

No dia em que se evocavam os três anos do incêndio de Pedrógão Grande, que vitimou 66 pessoas, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa anunciavam, com pompa e circunstância, que Lisboa iria receber a final da Champions. Um “feito único e irrepetível”.

Nonna Vespa

Este número propagandístico, só por existir, envergonha a memória coletiva de uma das maiores tragédias nacionais, mas consegue ficar ainda pior.

O anúncio torna-se mais sombrio quando a final desportiva é apresentada como um grande prémio para os profissionais de saúde. Isto no mesmo dia em que foi aprovado o Orçamento Suplementar sem incluir qualquer apoio para os soldados da linha da frente. Ou seja, obrigado senhores enfermeiros, médicos, auxiliares, aqui têm uma final da Liga dos Campeões.

A peça de surrealismo continua com Marcelo e Costa a garantirem aos portugueses que foi devido à forma como Portugal combateu a Covid-19, que a UEFA escolheu a final em Lisboa. Para Marcelo, Portugal venceu com mérito o combate à pandemia.

Não bastasse a data, que por respeito às vítimas dos incêndios florestais e os seus familiares pedia maior respeito, nesse mesmo dia a DGS comunicava que o número de infetados de Covid-19 era o mais alto dos oito dias antecedentes e, destes, 84% eram verificados, precisamente, na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Como se veio a verificar, a infeção na região de Lisboa mostrou estar descontrolada e a capital é um dos destinos menos aconselháveis na europa. De pouco vale a indignação de Augusto Santos Silva quando o Reino Unido coloca Portugal fora do corredor turístico. Não há spins internos que mudem a perceção internacional.

Isto prova que os representantes do Estado perderam a noção do que é prioritário. Praticam o populismo e governam quase exclusivamente para a esfera mediática. Depois, perante as reações da sociedade e comunidade internacional, mostram-se com o maior despautério, fingem-se surpreendidos e até incomodados.

Marcelo, Presidente, qual Spin Doctor, sublinhou que “o dia começou com uma evocação triste, a propósito das vítimas dos incêndios florestais. Depois, teve uma tarde cheia de debates sobre o presente e o futuro, com o orçamento suplementar e também com o Conselho Europeu. E termina, ao pôr-do-sol, com uma magnífica notícia para Portugal”.

O Presidente da República e o Primeiro-ministro não sabem como vive o cidadão comum, ou se sabem, ignoram-no nas suas ações.

É indiscutível a importância do turismo para a nossa comunidade, assim como é evidente que um grande evento desportivo tem um forte impacto económico, mas um número mediático não pode tentar esconder as graves falhas do Estado.

Costa e Marcelo eram Primeiro-ministro e Presidente da República à data da tragédia de Pedrógrão e falharam na prevenção, falharam na reação e falharam na palavra dada à população.

Quem não se lembra da fotografia de Marcelo agarrado ao Senhor Manuel, cidadão sénior vertido em lágrimas, quando perdeu tudo nos incêndios e a quem foi garantido que teria um teto para passar o Natal? O senhor Manuel desapareceu sem ver nada do que lhe foi prometido. Teve apenas um breve consolo e uma fotografia com o chefe de Estado, naquele que foi talvez o dia mais terrível da sua vida.

Três anos volvidos, perante o que seria o mínimo respeito exigível, na região em que a pandemia está descontrolada, Costa e Marcelo decidiram fazer um número de distração.

Com representantes assim, não admira que estejam a crescer novas soluções políticas. Os principais culpados estão identificados.

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