A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como: “ausência de doença, perfeito bem-estar físico, mental e social”, ou seja, saúde seria um “bem-estar” das pessoas. Ao querer definir “saúde” a OMS colocou-se numa posição limitadora do conceito de saúde, embora pareça estar convenientemente formado esse conceito, não pode desligar-se dos seres abióticos – animais, plantas e outros seres vivos mesmo microscópicos -, que formam a Criação, e esquece-se ainda da valorização da vertente cosmológica que tem para a saúde um importante incremento. Por isso, existem muitos investigadores que afirmam ser a definição insuficiente e utópica, dado não falar concretamente em toda a Criação. Quanto às minhas reflexões sobre o assunto, creio que têm razão, a saúde é um todo holístico, e quem, por exemplo, não estiver com um bem-estar cultural e espiritual, não está a bem-viver. Este conceito de bem-viver, tem a diferença do viver bem, dado que bem-viver significa uma comunhão consigo, com os outros e com a Natureza. Na cidade é assim, as pessoas – seres bióticos – estão a bem-viver e ter boa saúde se caminharem juntamente com os seres abióticos, e, até, com os inertes, como os museus, os castelos e por aí fora. O “perfeito bem-estar físico, mental e social” é incapaz, por si só, de traduzir a “saúde” dos cidadãos e da cidade.

A cultura de um povo, de uma cidade, afirma-se pelo que as cidadãs e os cidadãos acreditam que a felicidade é possível, mas que ninguém pode ser feliz sozinho. Exatamente como sair desta pandemia que nos vitima, ninguém individualmente sai dela sozinho, precisa dos outros, mas também dos seres vivos. Por isso a saúde há de ser a conjugação de muitos vetores, e se é “uma ausência de doença” e um “bem-estar físico, psicológico e mental”, tem de ser forçosamente um bem-estar “cultural e espiritual”, no seu sentido mais amplo que é o ontológico e o cosmológico e, sendo assim, a nossa convivência comum está ancorada numa ecologia, diferenciada em opiniões, mas unida no essencial. Ecologia como relação das forças energéticas que nos circundam e saem de cada um ou cada uma de nós. Só assim se compreende um bem-viver, que embora muito campesino, é determinante para o prosseguimento do caminho da vida.

Há quem alinhe espiritualidade com religião, e é verdade, porque religião é um “(re) ligar” com um cosmos que aí está, que ilumina e aquece o planeta, que “faz saúde”. A Saúde não vive só de ciência, ela abunda neste cosmos e religação. O tratamento do planeta que habitamos depende de uma poliédrica relação com as energias forjadas no todo do universo. Assim, também será a cidade que sofre ou não, conforme os ditames desta era em que ainda vivemos do “Antropoceno”, mas que cremos será modificada totalmente para a construção do bem-, viver. Antropoceno significa que a ação humana, e só, está no centro de todas as transformações, quando na verdade dependemos todos das relações quânticas, geradoras das várias formas de energia. Não estando a espiritualidade, assim como a cultura, fora destas relações, ela também é uma força geradora significativa, para não dizer substantiva, de toda a ação humana, e isso emerge de uma relação, às vezes tensa, que cada um possui com o Ser, que tantos conhecem e outros não conhecem ou não acreditam que acreditam na sua existência. É tudo isto que enforma a cidade, quer a cidade mais pequena, quer esta cidade – que alguns chamam apropriadamente aldeia -, terrena.

Escrevo isto tudo para afirmar uma básica satisfação pelo trabalho do tratamento da saúde, nomeadamente a vacinação contra o COVID-19, na Maia. A capacidade demonstrada pelos trabalhadores quer do Município, quer do Ministério da Saúde, são exemplares. É com muita felicidade que estes colaboradores de todos nós, sete dias por semana, vacinam, em instalações modelares, centenas e centenas de pessoas, com um esmero, limpeza e relação, dignos de justo reconhecimento por todos os habitantes da Maia. Poderia agradecer-se à Câmara Municipal da Maia este bonito acolhimento, mas estaríamos a polarizar numa entidade o serviço que tantos homens e mulheres realizam no Centro de Vacinação de Gemunde. Estamos a viver uma situação onde estes trabalhadores o fazem com um carinho, cultura e espiritualidade especiais. Não estou a escrever que em tantos centros de vacinação não o aconteça. Certamente!

No entanto, como tive de tomar a primeira vacina, não podia, nem devia, deixar de publicamente agradecer o apoio e o profissionalismo destas pessoas, que trabalham com felicidade e dão muito mais do que os seus salários pagam.
Este texto é para eles e elas, com profunda gratidão.

Joaquim Armindo
Pós – Doutorando em Teologia
Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental
Diácono- Porto – Portugal

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