A Covid-19 alterou, ainda que temporariamente, muitos dos nossos hábitos. Passamos a ter de usar uma máscara, a manter um certo “distanciamento social”, a conviver com o medo de ser infectado, a ter de aceitar limitações à nossa liberdade de circulação, de reunião, convívio e lazer. A passar mais tempo com a família e em casa.

Ordem dos Advogados Maia

Por alguns meses, os níveis de poluição diminuíram um pouco por todo o globo, permitindo até que muitas paisagens recuperassem uma cor que poucos se lembravam de ter visto…

Todavia, é bem possível que a pandemia possa ter provocado mudanças mais duradouras no nosso modelo de vida e até nas tendências do caminho que estávamos a trilhar, quer a nível local, quer no plano global. Já ninguém duvida que esta crise epidemiológica acelerou a nossa transição para o digital. O teletrabalho, as videoconferências, as “webinar”, o comércio electrónico e o marketing digital ganharam de facto uma dimensão que não possuíam.

Há até quem defenda que a Europa, por força desta pandemia, acabou por se aproximar da China e dos Estados Unidos, no que respeita à utilização do digital, de quem parecia estar algo atrasada…

Mas mais, é bem provável que assistamos a um novo olhar sobre a cidade. Sendo de admitir inclusive a um regresso de muita gente ao espaço rural ou a cidades mais pequenas. Na verdade, foi nas cidades, designadamente nas maiores e mais densas, onde o novo coronavírus se propagou com mais facilidade. E se podemos exercer a nossa prestação laboral em teletrabalho e temos à disposição boa internet, é natural que muitos de nós optem nos próximos tempos por viver fora dos grandes espaços urbanos. Da mesma forma que se é mais seguro viajar em transporte individual, também não será de admirar que muitos passem a privilegiar este, em detrimento dos transportes colectivos. Para não falar no destino dos lares, enquanto residências colectivas dos mais idosos, que por terem sido locais fortemente atingidos pelas cadeias de contágio, são hoje soluções que vão merecer pelo menos, uma profunda reflexão.

E sobre a globalização, estou certo que não vamos assistir a um retrocesso como alguns anunciam, ou seja, a uma espécie de “desglobalização”. O que não significa que não venhamos a observar no futuro a tentativas de limitar uma dita “excessiva interdependência”. Apostaria mesmo, que vamos assistir a acções concretas tendentes a restringir o “perigo” de depender demasiado dos outros…

Mas há uma realidade que a Covid-19 não alterou. Num mundo desigual, em que o novo coronavírus pode infectar um qualquer de nós, em qualquer geografia, a verdade é que, como alguém lembrava, “esta doença não ataca a todos por igual”. As populações mais frágeis continuam, como sempre, a ser as menos protegidas. E no final desta pandemia, os pobres vão ficar ainda mais pobres. As assimetrias vão seguramente aumentar.

Nós conhecemos o número de infectados e de mortos nos países europeus e, estou convicto, com elevado grau de certeza. Mas tenho dúvida que o saibamos na maior parte dos países Africanos, de alguns da Asia e mesmo da América Central e do Sul. Como também desconhecemos o número de infectados e de vítimas mortais dos diversos campos de refugiados espalhados pelo mundo, mesmo dos instalados no continente Europeu.

Para saber quem está infectado é preciso fazer testes, da mesma forma que para obrigar as pessoas a ficarem em casa, cumprindo medidas de confinamento, é necessário garantir-lhes um mínimo de rendimento que lhes permita pelo menos escapar à fome.

E os hospitais não têm todos a mesma capacidade de resposta nas diversas regiões do globo. E não estou a falar apenas na disponibilidade dos famosos “ventiladores”, como é óbvio…

Ainda recentemente a ONU solicitava à comunidade internacional uma ajuda no valor de 6,2 mil milhões de euros para acudir aos países mais vulneráveis no combate à Covid-19.

Sendo que de acordo com o subsecretário-geral das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários, Mark Lowcock, “não é esperado que o pico da pandemia atinja os países mais pobres nos próximos três a seis meses, mas já se começaram a verificar descidas de rendimentos e aumento do desemprego, falta de alimentos e subida de preços, além de crianças que falharam os prazos de vacinação e que passam fome”.

E a própria Amnistia Internacional, na semana passada, alertou para o facto das medidas de resposta à pandemia do novo coronavírus adoptadas à escala mundial, que incluíram bloqueios e restrições de movimento, terem agravado “as condições precárias de vida da população de refugiados e deixaram milhões de pessoas em risco de fome e de doenças.”

Esta pandemia lançou o mundo para uma crise sanitária e económica à escala global, de duração mais ou menos incerta, de tal forma que há quem adiante que apenas terminará quando for encontrada uma vacina eficaz. E que até lá, teremos de aprender a viver numa espécie de “nova normalidade.”

Sempre defendi, e continuo a defender, que os grandes desafios globais não podem prescindir dos contributos locais, mesmo dos contributos de cada um de nós, enquanto simples cidadãos. Mas o combate a esta pandemia carece também, e acima de tudo, de uma resposta global, de uma resposta concertada que mobilize os principais líderes mundiais, políticos, económicos e financeiros, e naturalmente, toda a comunidade científica.

É assim fundamental que todos sejam capazes, para além de alocarem os recursos necessários, de colocarem de lado o acessório em detrimento do essencial. Pelo que é com preocupação que assistimos à suspensão das contribuições para a Organização Mundial de Saúde decidida recentemente pela Administração Trump, como também à rejeição das Autoridades Chinesas em permitir uma investigação independente às origens da pandemia do novo coronavírus…

Este é o tempo, mais que nunca, de reafirmação da vontade de não abandonar os princípios, os objectivos e as metas constantes da Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável, que 193 países, incluindo a China e os Estados Unidos, subscreveram e aprovaram na Assembleia Geral das Nações Unidas de 25 de Setembro de 2015, e que tinha como missão principal “elevar o desenvolvimento de todo o planeta e melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas, num contexto de protecção do meio ambiente”. E que também tinha a ambição, recordemos, diversas vezes proclamada, de “não deixar ninguém para trás”.

Caso assim não se entenda, vamos assistir mesmo a um retrocesso. E o mundo pós-Covid 19, para além de diferente, vai ser muito mais desigual…

Paulo Ramalho

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