A política da cidade é o conjunto das ações e decisões que se tomam a favor da cidade. O que não pressupõe que as cidadãs e os cidadãos possuam as mesmas opiniões sobre todos os assuntos, que se colocam à análise na cidade. Existem uma série de opiniões reflexivas – quase se poderia dizer, uma por pessoa -, sobre o andamento da cidade. Tantas vezes estas opiniões têm que ver com poderes pessoais, de grupo, enlameados por quereres do exercício puro e simples do poder sobre os demais. Então os poderes económicos e religiosos fazem-se sentir com um desnudado impudor aos vários níveis. Não pode na cidade à sombra dos poderes políticos, existir o desmanchar da própria cidade, reduzindo-a a um único poder exercido em nome pessoal ou de um grupo que se crê iluminado. Para sobreviver este tipo de poder, subjuga-se a outros poderes, nomeadamente os poderes económicos e religiosos. Os poderes económicos são daqueles que quase nada fazem, para além de obterem lucros chorudos, pelo trabalho dos outros ou dormindo à sombra dos movimentos das bolsas, mas mesmo sendo “economia que mata”, não deixam de sujeitar os poderes políticos aos seus quereres. Os poderes religiosos são aqueles que ensombrados por um “deus-que-mata”, se não se cumprir o que a “padocentria” ou “bispocentria”, ou em menor escala, a “diaconocentria”, reduzem os seus sábios pareceres ao lamber das botas de biqueira de aço do poder político, para sobreviver, e ganham os votos para grupos políticos de poder, permanecerem intactos na sua magia de nada fazer, pretendendo fazer tudo, a favor das populações.

Neste estado de acontecimentos a política na cidade reduz-se ao “bem comum” de uns tantos em desfavor de muitos. Se não constitui uma surpresa que os poderes económicos sejam amarfanhadores do serviço às mulheres e aos homens que vivem na cidade e são cidade, já o constitui, que os poderes religiosos, não sejam fautores de uma (re) ligação ao Sagrado que nos criou a todos e todas, e se submeta a estátuas, estatuetas, ou obras quase faraónicas, permitindo aos poderes políticos lugares de exposição e de primeira fila em templos ou procissões, como o lugar primeiro não pertencesse ao Sagrado que proclamam.

O conjunto das opiniões e reflexões participativas faz a cidade. Por isso na cidade existem organizados ou não, cidadãs e cidadãos que dão corpo ao seu conjunto de ideias, para transformarem a cidade em terra onde valha a pena sorrir para o futuro. Estas organizações, sejam partidos políticos ou movimentos de cidadãos, dão a frescura à cidade, se o Sol aparecer nas manhãs dos girassóis.

Uma das marcas de que é possível destruir esses amanheceres de Sol, é a perpetuidade ou não dos poderes políticos organizados. Os bons coordenadores políticos são-no por pouco tempo, ficando as suas análises, como mais um contributo, como de qualquer cidadão. Quando verificamos na organização dos grupos políticos, homens ou mulheres, que se agarram aos órgãos de decisão e direção da cidade ou dos seus grupos políticos, não estamos perante alguém que quer servir os habitantes da cidade, mas sim, que quer perpetuar a sua dinâmica poderosa sobre a cidade, sendo esta então um simulacro de cidade. Eles ou elas mesmo se destroem a si próprios pelo exercício não de uma coordenação de ideias e sua execução a bem da cidade, mas pelos erros e vícios que adquire quem quer ter poder, e este é sempre destrutivo, dos outros, de si próprio e da cidade. Um bom cidadão ou uma boa cidadã que exerce a dinamização da cidade, no sentido de agregar as vontades dos bem-comum e bem-viver, não o poderá fazer por muito tempo, nem traindo a lei portuguesa – que proíbe a candidatura a determinado cargo político, mas não a outro -, nem traindo as vontades de que esse cidadão ou cidadã é serviço, e deve saber fazer mais na sua vida que esse exercício. Aqui está uma marca – quanto ao meu parecer -, que deve ser validada ou não pelas populações. A cividade de qualquer pessoa se mede pelo seu “agarrar o poder” a qualquer custo e onde for possível, porque o poder já o está a corroer, e na vida da cidade já não sabe fazer mais nada do que dizer “ser o melhor”, e “os outros não possuem a minha capacidade”. É a corrupção em ato, o esquecimento que existem outros ou outras que podem fazer serviço aos outros, melhor ou igual a nós próprios. Uma negação da cidadania.

Mas a política na cidade não pode ser corruptiva e ninguém sorri para aqueles ou aquelas que fazem da sua vida o exercício de poderes, que lhe são, ou não delegados em voto. O próprio voto só será democrático quando a cidadania for ativa, sem rodeios e obediências cegas ao grupo político que os elege, para sua direção ou para coordenação da cidadania. É corrupto e insensível quem quer na cidade o exercício da sua coordenação por tempo indeterminado. Isso é uma questão da não-cultura cidadã.

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar, diz a canção. Também, aqui, é assim!

Joaquim Armindo
Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental
Pós- Doutorando em Teologia

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