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Morreu Joaquín Salvador Lavado mais conhecido por Quino, o cartoonista argentino que no início dos anos 60 deu vida à personagem Mafalda. E quem diria que a irreverente menina de seis anos, inicialmente criada para efeitos publicitários por uma marca de electrodomésticos, iria cativar toda uma geração de miúdos e graúdos em todo o Mundo.

De facto, os que primeiro leram as famosas tirinhas de BD de Quino, são hoje pais e avós que mostraram aos filhos e netos o humor inteligente de Quino e da sua Mafalda, cabendo-nos a nós impedir que a personagem desapareça com o seu autor, o que seria uma dupla perda para a humanidade.

Na verdade quando nasci já há muito não eram publicados novos cartoons da Mafalda pelo que foi a compilação editada com literalmente “Toda a Mafalda” que me apresentou à personagem (obrigada pai e mãe). Sem dúvida que o facto desta heroína não ter “vivido” muito tempo (segundo o autor precisamente para não cansar os leitores e esgotar a personagem) auxilia na criação de toda a mística à sua volta, mas é a personalidade da Mafalda e as questões que coloca que a tornam intemporal.

Mafalda é irreverente, inteligente, mordaz, questiona a sociedade em que vive e quem a rodeia com uma maturidade singular, utilizando em compensação toda a curiosidade e espontaneidade própria da idade.

Quino pretenderia com a histórias da menina, sua família e amigos (entre os quais uma personagem ainda mais pequena, de seu oportuno nome “Liberdade”), denunciar através do humor e ironia convenções sociais e politicas que já naquela altura, sobretudo entre a juventude, caiam em desuso. Para tanto utilizou habilmente a idade dos “porquês”.  Porque da boca de uma criança saem não raras vezes as interrogações mais certeiras e as verdades mais inconvenientes.

“Toda a Mafalda” é um deleite para as mentes inquietas e para aqueles que nunca viram a sua idade dos porquês terminar.

Sobretudo entre a juventude actual, muitas vezes apelidada de adormecida e alienada quando comparada com o movimento de contracultura dos anos 60 de quebra de tabus e padrões preconizados, deviam existir mais Mafaldas de carne e osso (sem olhar a género).

No clássico de F. Scott Fitzgerald  “o Grande Gatsby” sobre uma igualmente icónica década – a dos anos 20 -, a certo ponto a protagonista feminina Daisy ao referir-se à sua filha, diz que deseja que ela seja ignorante porque a melhor coisa que uma mulher pode ser neste Mundo é uma bela e pequena ignorante (como a própria teve de fingir ser).

Trata-se de uma mãe que pensando apenas e tão só na felicidade da sua filha, lhe deseja uma vida de desconhecimento para não sofrer com a crua realidade da vida.

Embora a obra mais célebre de Fitzgerald seja mais datada que a maior criação de Quino, a amarga e irónica citação de Daisy é igualmente intemporal.

Pensar a vida e não apenas vivê-la, contestar padrões estabelecidos, observar com a alma o Mundo que nos rodeia, ir ao âmago das questões, ainda que isso possa ferir susceptibilidades, é um passaporte para o pessimismo. Por isso Mafaldinha, embora tão nova, já era tão descrente.

O que responderia Mafalda a Daisy se a pudesse ouvir? Certamente que é por pensamentos assim que a sociedade não evolui.

São as “Mafaldas” que mudam o Mundo. Que marcam quem as rodeia.

Curiosamente um dia depois do aniversário da publicação do primeiro cartoon da sua icónica personagem, Quino faleceu. Contudo viverá em cada criança que vir na Mafalda o seu ídolo.

Angelina Lima
A autora escreve segundo a antiga ortografia

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