Consecutivamente vamos ouvindo falar em Responsabilidade Social, nas cidades, através de ações, que mais parecem filantropia. É a responsabilidade social que as empresas, com os lucros obtidos dão às várias intervenções na cidade. Ou são subsídios, enquanto mecenas – que, diga-se, dá para descontar nos impostos pagos ao Estado -, ou são como ações voluntárias para associações, câmaras, parcerias, e outros que as empresas distribuem pelos seus “parceiros”. Normalmente com valores pecuniários, ou então a cedência de instalações ou outros, para a realização dessas ações. Têm gerado conflito estas formas de auxílio, que se dizem de “responsabilidade social”, quando não passam de “lucros” que as empresas, derivados das vendas dos seus produtos e do trabalho dos seus trabalhadores. O capitalismo evoluiu para outras formas de o ser, como o neoliberalismo, que necessitava de se apoiar em Organizações Não Governamentais (ONG), financiá-las e controlá-las, e assim serem úteis à sociedade, e implantar modelos mais amigos dos cidadãos. Mesmo as cidades recebem um quinhão de subsídios filantrópicos – leia-se, promoções pessoais -, à custa do trabalho de tantos. Isso chama-se, em vez de responsabilidade social, o filantrocapitalismo, uma nova palavra para o nosso léxico. Isto não significa que não sejam bem-vindos os apoios destas empresas, que poderiam, muito bem, ficar nos bolsos dos seus donos…

Cozinca

Até podemos certificar esta “responsabilidade social”, existem normas para tal e organismos certificadores do “bem” que essas organizações podem fazer. Ou seja, com o dinheiro ganho nas suas vendas, as empresas pretendem continuar com um neocapitalismo interesseiro, ajudando organizações e pessoas, tantas vezes à custa dos magros salários pagos aos seus trabalhadores. O “filantrocapitalista”, mascarado duma pretensa “responsabilidade social”, tenta através de dádivas, consertar alguma coisa do que fez, para se manter; uma construção de cidade neocapitalista à custa dessas dádivas. Este é um novo caminho que os neoliberalistas encontram, numa tentativa de dar resposta às carências prementes dos nossos tempos, e assim aliviar a carga brutal sobre as pessoas, que criam a cidade. São “Ricos e Bons?” definidos no livro “Ricos e Bons – As tramas sombrias do flantrocapitalismo”, que Nicoletta Dentico, escreveu em 2020 (fonte: Revista Além-Mar, de fevereiro de 2021, dos Missionários Combonianos). Esta bondade mostrada por tantos feitores do capitalismo selvagem e que mata, impõe-se para que tudo fique na mesma. Ainda bem que existem pobres, descartados, sem-abrigo, cultura a precisar dos privados, porque assim o neocapitalismo mostra a sua “bondade” em construir a cidade, através dos cidadãos. Esta esperteza é de tal modo que deixou para trás palavras que poderiam virar-se contra eles, como a “caridade” ou “caridadezinha”. Ainda bem que existem problemas climáticos, porque assim podem combatê-los, através de financiamentos, que até lhes vão dar lucros, dado que são necessárias novas empresas, para o combate às alterações climáticas, de que eles são responsáveis. Ainda bem que existe a pandemia COVID- 19, porque podem financiar ações contra ela, favorecendo as grandes empresas farmacêuticas, com lucros astronómicos, com as vacinas.

A Fraternidade na cidade é, porém, outra coisa, que os poderes muito querem agarrar, para poderem mais uma vez esmagarem o desenvolvimento sustentável. Esta Fraternidade cuja encíclica “Todos Irmãos”, do bispo de Roma, papa Francisco, enuncia, parte de um outro paradigma, que é a Amizade Social. O denunciador da “economia que mata”, refere que é o Amor que pode ser eficaz na mudança para outra sociedade, e “A partir do “amor social” é possível avançar para uma civilização do amor a que todos nos podemos sentir chamados. Com o dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos. O amor social é uma força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e renovar profundamente, a partir do interior, as estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos”.

E, escrevendo sobre o “prazer de reconhecer o outro”, afirma a necessidade de “Um pacto cultural pressupõe que se renuncie a compreender-se de maneira monolítica a identidade de um lugar, e exige que se respeite a diversidade, oferecendo-lhe caminhos de promoção e integração social”.

E, das duas uma, ou continuamos a seguir o caminho da chamada “responsabilidade social”, ou o da Fraternidade, onde todos seremos irmãos e irmãs.

Joaquim Armindo
Pós – doutorando em Teologia
Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental

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