Cinquenta Sombras

1.- A chamada trilogia, “As Cinquentas Sombras de Grey”, constitui um atentado à inteligência dos homens e das mulheres, e, no que diz respeito a estas, uma contínua anti dignificação da mulher e do seu corpo. Aqueles três livros são um não-livro, não por questões éticas ou morais, que não abordo aqui, mas porque a substantividade que deles se recolhe é uma não-história, não consegue sequer ser erótico ou pornográfico. Das suas linhas pode recolher-se, para aplicar José Gil, como um “não-situado”, nem sequer constitui um 0 (zero). Sem história, pretende no final do III volume, constituir algo de conservador acabando tudo em bem, neste bem duma sociedade estereotipada, onde o amarfanhamento da pessoa é típico dos usos da violência. A repetição das cenas é uma sucessão, sucessiva, sucedidas, sucessivamente; em cada página existe uma repetição dos parágrafos anteriores e nada de novo até ao fim. Se estes não-livros, com um marketing exemplar, pretendem salientar o erótico ou a sexualidade violenta e a pornografia, não o conseguem, como já o disse, dado não existir qualquer unidade capitular e ser constituído por uma semântica irregular e confusa

2.- Como filme “As Cinquentas Sombras de Grey” é pobrezinho, não incomoda e limita-se a transferir o enredo do livro para uma narrativa cinematográfica confusa e burlesca. A história do cinema está repleta de filmes ferozes, que analisam e enfrentam os dilemas da sexualidade humana. “As Cinquentas Sombras de Grey” faz figura de ingénuo nesta longa tradição. As personagens são tipificadas, faltando um certo desenvolvimento dramático. Nesse sentido, os atores cumprem apenas uma função caricatural. Não há dúvida de que se continua, antes de ser um filme, produto de marketing, que encaixa que nem uma luva numa estratégia de criação de “acontecimentos” populares com picos extremos de exposição mediática (vejam-se todas as notícias, reportagens e ensaios, sobre a “sexualidade dos portugueses” em diversos meios de comunicação social).

3.- Os livros e o filme não possuem luz e, curiosamente, nem sombras, são um produto de sociedades encarceradas, por isso não-situadas, famintas de amor, também sexual, não-redutoras, quer de moralidades estáticas, quer do indiferentismo quanto ao valor da sexualidade. Quando as sociedades são politicamente e culturalmente frustradas, é necessário atingir orgasmos incolores, que façam o desvio das questões fundamentais que se colocam hoje às pessoas. Por isso surgem estes não-livros e não-filme, como para atordoar as capacidades reivindicativas da coesão social. O valor da sexualidade entre pessoas é uma vertente de um caminho virado para a felicidade, isso não é tratado e mesmo a farsa de uma felicidade final, “e foram felizes para sempre”, corrompe as virtualidades dos comportamentos humanos. Esta não-literatura é o fingimento e entretimento das capacidades humanas, viradas para uma violência tradutora da mais abstrata condição de dignidade.

4.- A coesão social é sem dúvida central nas sociedades, e só com o desenvolvimento económico, ambiental e cultural se pode conseguir. A coesão social contém possui na igualdade de género o epicentro – não sei até se será superior à riqueza e pobreza -, ora os não-livros e não-filme, de que vimos falando, não contribuem para a coesão social, mas é um violento ataque à mulher, fazendo dela tapete de limpar os pés, subserviente e que pelo sexo consegue algumas coisas, casamentos, de “papel passado”, onde a mulher constitui a prostituição num grau muito elevado, duma subversão ao papel da mulher na sexualidade. Não são livros e filme de amor, antes tratam a sexualidade como esterco fora das condições humanas. Não são de “sombras”, nem de “luz”, mas um repositório mal acabado daquilo, que embora não deva estar num Índex, porque nada deve estar aí, é traidor do desenvolvimento da criação, dos homens e das mulheres. Nem “nada traz”, porque não consegue ser “nada”, vejam bem, nem pornográfico, nada constitui, a não ser o poder de nos alertar como com não-livros e não-cinema, quer na forma, quer no conteúdo, para a humanidade da violência.

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental
Mestre em Gestão da Qualidade
Diácono da Diocese do Porto

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