Dr. Google

Desde que me lembro que quando me sentei pela primeira vez em frente de uma pessoa com qualquer tipo de problema de saúde, que sou assolado por uma concorrência completamente desleal: O Dr. Google.

Efectivamente, o médico em Portugal teve de se adaptar e mudar o seu paradigma no atendimento dos seus doentes. Hoje os doentes são informados, têm acesso a toda a informação cientifica e conhecem na maioria das vezes os seus direitos e deveres.

Há, no entanto, uma tentação terrível no que na saúde diz respeito: é a de assunção que tudo o que aparece nas pesquisas internautas, nas partilhas em fóruns é a verdade absoluta sobre determinado assunto. Pior, é que muitas vezes, existe a tentação de o próprio Dr. Google dar a resposta aos conjunto de sinais e sintomas com um diagnóstico, terapêutica e cuidados a ter.

Ao médico que nunca teve um doente que se sentou e disse qual o diagnóstico e tratamento que tinha lido ser o melhor para ele, que atire a primeira pedra.

Desde sempre, e acreditando sempre no que os doentes me contam (sim sou daqueles que valoriza todos os sinais e sintomas, porque entendo que o doente tem mesmo sempre razão !!!), que existe uma “pressãozinha” para a prescrição do antibiótico em todas as condições. Mesmo com as pessoas mais próximas de mim isso se passa. Penso que é cultural, que está enraizado, e que assim explica relatórios da Organização Mundial de Saúde onde Portugal de destaca na prescrição sazonal de quinolonas (um tipo de antibiótico), que se o leitor tiver curiosidade de ir estudar entenderá o quão ridículo e perigoso é esta prática (não existe uma sazonalidade nas principais doenças em que se justifica optar por uma quinolona).

Os que me procuram já sabem que não prescrevo antibiótico profilático! Logo quando me abordam explico claramente quais os critérios para antbioterapia. Reconheço que dá trabalho, porque algumas vezes vou contra o Dr. Google, e, como se não bastasse, também vou contra algumas astrónomas e cartomantes que têm programas televisivos. Contudo, sei que estou a cumprir os fundamentos do juramento de Hipócrates que tão convictamente os assumi. Logo devemos actuar sempre com a melhor evidência disponível para o doente, explicando os motivos da nossa actuação.
Serve esta explicação inicial para abordar o surgimento de bactérias resistentes a antibióticos num hospital Português. Não quero de modo algum encontrar suspeitos, culpados, ou apontar dedos a práticas ou conhecimentos científicos. Quero isto sim alertar, que quanto mais oportunidades dermos a bactérias de contactar com antibióticos diferentes, maior dificuldade teremos de num futuro que é já hoje em arranjar arsenal terapêutico no momento em que precisarmos dele. Sobretudo quando esses antibióticos não são mesmo necessários para a resolução do problema de saúde em questão.

A despesa com medicamentos continua a subir vertiginosamente, sendo os antibióticos um dos responsáveis por este crescimento. Pior do que isso, é que más atitudes terapêuticas, condicionam gastos maiores futuros para compensar o erro inicial.

Já foram tomadas medidas (e bem) pelo ministério da saúde. Contudo a iliteracia vai-se mantendo, não se conseguindo apontar razões para isso.

Trata-se de um problema de saúde pública. Trata-se de um problema de educação. Trata-se de um problema de desafio ao conhecimento que hoje o doente tem.

Compete a todos uma estratégia concertada para que consigamos sempre ter respostas rápidas e certas para os problemas que nos atingem.

O bem de um é o bem de todos!

Ricardo Filipe Oliveira,
Médico;
Doc. Universitário UP;
Lic Neurof. UP;
Mestre Eng. Biomédica FEUP ,
Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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