A Verónica, espanhola de 32 anos, funcionária da Iveco, mãe de dois filhos, um de quatro anos e outro de 9 meses, decidiu morrer. Começou a trabalhar na linha de montagem da empresa em 2006 e levava uma vida como muitas outras mulheres, até que no dia 25 de maio, saiu mais cedo e foi para casa para acabar com a vida.

Alguém divulgou aos colegas um vídeo sexual da mulher, gravado 5 anos antes, que circulava há semanas entre os funcionários da empresa até que chegou ao marido. Ao descobrir, a Verónica teve um ataque de ansiedade durante o horário laboral e foi levada para casa, onde se enforcou.

Tinha-se queixado aos Recursos Humanos e procurou obter ajuda para tentar evitar que o vídeo se espalhasse. Evitou fazer queixa na polícia porque achou que poderia aumentar as proporções do caso e o objetivo era o contrário.

Alguns colegas chegaram a apontar-lhe o dedo para dizerem quem era a mulher do vídeo, “é aquela ali”, outros houve a procurá-la só para verem quem ela era. Entre dias em que chorou e dias em que conseguiu ignorar adultos que se comportam como primatas perante a sexualidade de uma mulher, chegou a desabafar “já não posso mais”. Numa edição da revista oficial da Iveco, datada de março de 2012, Verónica era citada: “Trabalhar com colegas agradáveis faz com que passes um dia mais tranquilo”.

No dia 25 de maio, o vídeo, via Whatsapp, chega às mãos da cunhada que também trabalha na mesma empresa, que o partilhou com o irmão. Foi fatal. Com a sua privacidade violada, vida íntima invadida e com a brutalidade do bullying mascarado de brincadeira, Verónica acabaria por se enforcar em casa.

Em 2019 ainda se lida com a sexualidade de uma mulher atribuindo-lhe elevado grau de culpabilidade, como se fosse motivo de chacota ou indignidade. Que mundo este.

Todos os colegas que viram o vídeo, que o partilharam, que riram, que se divertiram às custas de Verónica e não denunciaram a situação, são cúmplices. Quem não denuncia uma invasão de privacidade e ainda contribui para a aumentar, além de cruel, é um cobarde.

O grau de culpabilidade dos colegas caberá às autoridades, sendo que, cada um, pode vir a ser considerado responsável pela morte da mulher.

Há vários casos como o da Verónica Rúbio. Pelo mundo fora e em países de primeiro mundo, apesar da indignação fácil que este caso provoca, muitos seriam os que, em semelhante situação, participariam neste tipo de crime. Muitos casos há que não terminam com a mesma fatalidade, mas não deixam de ser igualmente graves.

A Verónica já não volta. Mas a obrigação de evitar que existam mais verónicas, cabe a todos. A sexualidade da mulher não é motivo de vergonha.

Aldo Maia

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