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“As quotas étnico-raciais chegaram a Hollywood”

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O racismo, a xeno e a homofobia e a desigualdade de género são, ainda hoje, temas fracturantes no Mundo em geral e na América em particular, principalmente desde que Donald Trump chegou ao poder.

No que a Hollywood diz respeito, movimentos como o Time’s up e hashtags como o #metoo e, este mais específico, #oscarsSoWhite, influenciaram indelevelmente a Academia e as últimas cerimónias dos Óscares.

Há cada vez mais mulheres a fazerem parte dos jurados; Kevin Hart um conhecido comediante americano foi afastado (ou desistiu), da apresentação da cerimónia deste ano, após fazer piadas consideradas homofóbicas no twitter; e a academia premiou este ano um recorde de 7 pessoas de raça negra, após em 2015 e 2016 não constar nenhum nas nomeações às categorias de interpretação – que deu origem ao tal hashtag e levou a que muitos artistas negros faltassem à cerimónia. O que tentaram colmatar nos últimos dois anos, ao incluir em 2017 e 2018 pelo menos um artista negro nas categorias principais de representação, realização, ou argumento adaptado a título de exemplo (e o triste que é ter que escrever esta frase).

Este ano quase que uma longa-metragem totalmente não falada em inglês, ganhava o óscar de melhor filme pela primeira vez – Roma. Quase. Talvez vencesse se não fosse produzido pela Netflix, numa altura em que os grandes produtores de Hollywood abrem guerra ao streaming.

Ainda assim, a Academia manteve o hábito de premiar com o grande Óscar o conteúdo demagógico do filme – seja numa vertente social, politica ou moral – do que a qualidade cinematográfica do mesmo. Neste caso atribuindo o prémio a “Green Book”, que tem como temática o racismo, precisamente.

A diversidade étnico-racial deve ser fomentada, não só no cinema como em todas as áreas. No entanto colocar a tónica na cor da pele dos nomeados e vencedores não é per si uma forma de racismo?

Mesmo não estando em causa a qualidade dos premiados, uma discriminação, ainda que pela positiva, é sempre uma discriminação. Gosto de acreditar que se tivesse existido um apresentador da cerimónia, este teria apontado de certeza para o “elefante no meio da sala”: após uns #oscarsSoWhite tivemos uns #oscarsveryBlackish (numa alusão à sitcom com o mesmo nome).

Longe vão os tempos em que se premiava a excelência, de forma neutra e isenta do “politicamente correcto”. Quem merece ganhar e quem provavelmente vai ganhar em muitas categorias nunca coincide, fruto disso mesmo – à excepção do prémio de fotografia, que, na minha opinião está claro, é normalmente atribuído aos melhores (talvez por isso Alfonso Cuarón tenha conseguido pela primeira vez na história acumular o prémio de direcção de fotografia e realização).

Numa sociedade tão susceptível como a actual, em que tudo ofende, os prémios políticos, que sejamos francos, sempre existiram, serão cada vez mais habituais numa Academia que quer passar à margem de controvérsias.

E aos que acompanham a cerimónia de entrega dos Óscares todos os anos, a lógica na atribuição dos prémios começa a ser cada vez mais previsível, aliado ao facto de ser o último da época dos prémios da 7ª arte a ser entregue, já depois dos globos de ouro, dos prémios dos sindicatos e dos BAFTA. Contudo, a Academia sempre evitou a repetição de vencedores, colocando notas de surpresa em algumas categorias para manter a expectativa.

Com isto tudo perde-se o encanto do espectáculo que é ainda dos mais vistos em todo o Mundo (por quanto mais tempo?). Já nem piadas e trocadilhos aos filmes em competição se fazem, para não ferir a susceptibilidade dos presentes e dos espectadores.

Os produtores da cerimónia e os membros da Academia são o sonho de qualquer grevista. Tudo fazem para evitar ou colmatar a contestação. Neste caso em prejuízo da credibilidade e da verdadeira igualdade de género e étnico- racial: Quando o apresentador é acusado de homofobia é afastado; Quando os movimentos feministas começam a ganhar terreno colocam mais mulheres nos jurados da Academia. Nas nomeações a questão já está aparentemente ultrapassada, contudo em termos de vencedoras – tirando os prémios para melhor actriz e melhor actriz secundária obviamente- dava tema para outra crónica; Quando os óscares são apelidados de “brancos” nas nomeações, colocam um artista de cor nas principais categorias – sem qualquer tipo de desprimor mais uma vez-; E de bónus este ano ainda nomearam a 10 óscares um filme de um dos mais “fora da caixa” (e melhores) realizadores da actualidade, “ a Favorita” do grego Yorgos Lánthimos – só um filme, mais que isso já ia parecer Cannes – para darem uns ares de
vanguardismo.

Infelizmente ainda temos que aplaudir quando a primeira mulher, ou o primeiro negro, ou até, aliando ambos, a primeira mulher negra – quando a Academia perde a cabeça- vence numa determinada categoria. É ainda muito raro. E mesmo na composição dos jurados que votam, a percentagem de membros Brancos e Homens é avassaladora. No entanto abrir quotas encapotadas étnico-raciais ou para mulheres, numa área (cultural saliente-se) em que se devia tão só privilegiar a qualidade e competência é um insulto às lutas antidiscriminação. Antes as tornam ainda mais necessárias.

Termino dizendo que não deixa de ser curioso que os mesmos espectadores, politicamente correctos, que as referidas entidades querem agradar, são os mesmos que aplaudem a cumplicidade de uma actuação musical e fomentam a proximidade entre os dois actores que a recriaram, quando um deles tem namorada e uma filha. Porque melhor que um bom filme, só uma boa novela da vida real.

(A autora escreve segundo a antiga ortografia)

Angelina Lima

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