Maria Fradique juntou-se ao GAS’África e foi em missão para África durante dois meses. Conheça o testemunho desta jovem maiata.

Maria Fradique, agora com 22 anos, partiu em missão para Angola quando tinha apenas 19 anos. A jovem maiata juntou-se ao GAS’África – Grupo de Acão Social em África e Portugal quando entrou na faculdade e, agora, é coordenadora e membro da direção.

Cozinca

Em entrevista ao NOTÍCIAS MAIA, Maria Fradique conta que sempre sentiu vontade de fazer parte de um grupo de voluntariado e que se identificou com os valores do GAS’África.

Maria partiu em missão para Angola em 2017, durante dois meses, e garante que, se pudesse, voltava já amanhã.

Notícias Maia (NM): O que é que te levou a partir em missão com 19 anos?

Maria Fradique (MF): Eu sempre fui muito revoltada com certas injustiças, não sou capaz de ver alguém numa situação diferente da minha e não me importar. Eu sempre senti que iria passar pelo mundo do voluntariado e quando fui para a faculdade, tinha a certeza que o queria fazer. Não sabia que era internacional ou se ia para Angola, mas surgiu a oportunidade de entrar para o GAS’ÁFRICA e fazer formação. E depois até posso dizer que não queria ir em missão no fim da formação.

NM: Mas como é que funciona? Vocês entram e têm uma formação já com o propósito de ir em missão?

MF: A formação é muito virada para o desenvolvimento pessoal, para o teu crescimento. No fundo, para que não vás em missão com coisas para resolver dentro de ti. Isto porque uma pessoa que não está bem não vai ajudar ninguém. Portanto, a formação é muito orientada para ti mesma e para viver em comunidade. Para tu ires com aquelas pessoas e conseguirem resolver conflitos, já metalizadas dos valores e do tempo que lá vão estar. É muito orientada para a missão claro, mas é uma formação para a vida, por isso é que no fim eu pensei que já tinha o suficiente e que não poderia fazer mais nada.

NM: Mas acabas a formação em 2017 e vais para Angola com 19 anos. Vocês vão com que propósito? Construir uma escola, por exemplo…

MF: O GAS’ÁFRICA faz um trabalho de cooperação para o desenvolvimento, nós não vamos e construímos. É como aquela questão do pescar, nós não vamos e pescamos, nós vamos ensinar a pescar. Claro que é preciso quem vá construir escolas, mas não é o que nós fazemos. E portanto, como já tinha havido duas missões em Angola, o objetivo é sempre continuar o trabalho que foi feito para haver mais frutos no futuro. Eu fui dar formação de técnica de alfabetização, formação aos professores para que eles pudessem melhorar a forma como comunicam com os alunos, porque a educação é uma coisa que está muito fragilizada em Angola.

NM: Foram bem recebidos?

MF: Sim. Nós somos sempre bem recebidos, seja nas grandes cidades, seja nas pequenas.

NM: Sentes que as pessoas vos querem lá?

MF: Querem! Sabes que, isto se calhar não fica muito bem dizer, mas a ideia é que os brancos vão ajudar. E nós beneficiamos dessa visão que eles têm dos brancos. Mas depois também tentamos dizer que nem todos os brancos são bons e que não vimos salvar ninguém. Eles já conhecem o GAS’ÁFRICA e sabem que vamos para aquelas comunidades onde mais ninguém chega.

NM: Dizias-me há pouco tempo que parece que lá estiveste ontem e que, se pudesses, ias já amanhã. Porquê este sentimento?

MF: É muito difícil desligar! Eu não consigo explicar-te porquê. Por exemplo, há pessoas que ficam cinco anos no GAS’ÁFRICA, há muito pouca gente a fazer isso por outras organizações. Isto realmente tem que fazer sentido para ti, os valores têm que fazer sentido na tua vida. Nós ocupamos realmente muito do nosso tempo a dar à causa e tem mesmo que fazer sentido.

NM: Porquê o sentimento de saudade?

MF: Porque fica tanto por fazer. Sentes sempre que fica alguma coisa por fazer e depois há pessoas que nos tocam para sempre. Ficamos a pensar que voltamos para o conforto da minha casa, do nosso país, e aquelas pessoas estão exatamente na mesma situação.

NM: Como é que uma menina de 19 anos chega a um país totalmente diferente e lida com a diferença de realidades?

MF: Foi assim um choque. Eu estava à espera, porque a formação também nos prepara e temos muitos testemunhos de pessoas que já partiram, mas ver… não há palavras. Veres crianças a passar por situações que tu nunca imaginaste, pessoas que fazem uma refeição por dia e são felizes, pessoas que andam descalças, pessoas que caminham quatro horas de madrugada para chegar à tua formação às 9h00…

NM: É por isso que depois vens embora e sentes que ficou muita coisa por fazer? Tu fizeste a tua parte mas se calhar querias tirar as pessoas daquela realidade. É isso que se sente quando se vai em missão?

MF: Sim, sabes que eu acho que às vezes é um bocadinho ingrato. Porque tu não vês a continuidade, não vês o que tu fizeste nem o que fizeram a seguir a ti. Não sabes o amor que deram como tu também deste. Aquelas pessoas ficaram bem entregues e há sempre alguém que está a olhar por elas. Nós conhecemos os líderes das comunidades, mantemos o contacto e sabemos que elas estão bem. Mas, ainda assim, é aquele sentimento de abandono, das duas partes, porque eles também me deram tanto e eu estou a perder neste momento.

NM: E tu não manténs contacto com essas pessoas?

MF: É muito difícil, porque nos locais onde nós estivemos não há nada. Não há rede, não há internet, as pessoas não têm telemóvel. Há alguns jovens que se calhar já vão mais às escolas no centro e têm facebook. Com esses é possível manter algum contacto, mas a internet é uma coisa muito cara, muito rudimentar. E é mesmo muito difícil e muito triste não conseguir manter essa ligação. A única ligação que nós temos é com um dos líderes locais, que é um padre, que nos vai enviando fotografias, vídeos que nos partem o coração, mas que é muito bom perceber que as nossas pessoas estão bem.

NM: Dizias-me há pouco que é difícil desligar mas, de certa forma, vocês não desligam. Souberam que as pessoas estavam a passar mais dificuldades e mobilizaram-se, por exemplo. Angariaram aqui uma quantia em dinheiro e enviaram para lá, através do padre que me falaste. Isso mantém-vos de certa forma ligados?

MF: Sim. É muito bom que eles saibam que podem contar connosco. E também é bom para nós sabermos que podemos ajudar mesmo à distância. O que não é uma coisa fácil com outras organizações, pela questão da confiança. E as pessoas confiaram no GAS’ÁFRICA e nas pessoas em quem nós confiamos. Entretanto já recebemos vídeos a dizer que, com o dinheiro, construíram uma oficina de costura para fazer máscaras e plantaram uma horta para as pessoas terem o que comer. Porque o problema não era o desinfetante, lá as pessoas estavam a comprar máscaras e não tinham comida. Mas aquelas pessoas estão bem entregues e não podíamos ter escolhido melhor pessoa por quem manter o contacto.

NM: Depois de irem em missão, continuas no GAS’ÁFRICA e agora chegas à direção. Qual é o teu objetivo no cargo de coordenadora?

MF: Eu na verdade tive uma pausa, não fiquei estes anos todos até chegar à direção. Mas agora o objetivo é que aquelas pessoas que estão a fazer formação tenham uma experiência, no mínimo, igual à que eu tive. Que vivam aquilo de forma tão intensa como eu vivi e que saiam dali com amigos para sempre, como eu acredito que fiquei. Quem já foi em missão sente vontade de voltar, mas também temos de nos lembrar que há pessoas incríveis que nunca foram e que eu posso ter um bocadinho de mão nisto. Posso ajudar pessoas incríveis a sentirem isto que eu sinto.

NM: Mas mesmo assim ias já amanhã.

MF: Mesmo assim, ia!

NM: E pensas voltar? É possível ir uma segunda vez em missão através do GAS’ÁFRICA?

MF: Sim, é possível e a direção também pode ir, nomeadamente em missões de reconhecimento para ver o que é que pode ser feito de forma diferente, ver se a continuidade está a fazer sentido. Mas claro, todos os dias eu penso naquelas pessoas que agora estarão tão diferentes, com eu também agora estou.

NM: E como é que as pessoas podem ajudar o GAS’ÁFRICA?

MF: Desde logo é importante ter voluntários. Eu acredito mesmo que há um tipo de voluntariado para cada pessoa e nem toda a gente quer partir para um país estrangeiro, ou ficar dois meses sem a família. E está tudo bem. Depois também precisamos de apoios. Nós tentamos sempre que os voluntários não tenham custos ao partir em missão e, ao longo do ano, tentamos estar presentes na vida das pessoas através de eventos, através de formações, de tudo e mais alguma coisa. Tentamos unir as pessoas nesse sentido de forma a angariar fundos para nossos voluntários levarem o GAS’ÁFRICA em missão.

NM: Qualquer pessoa pode ser voluntária ou tem de ser um voluntariado de estudantes?

MF: Não. O GAS’ÁFRICA é tendencialmente constituído por jovens estudantes, contudo há pessoas que trabalham e que vão em missão, é possível conciliar. Por exemplo, muita gente nos pergunta se é possível conciliar o horário de trabalho com as formações semanais. E se quiser, sim, é.

NM: Para terminar, quatro anos depois, o que é que mais ter marcou naquele tempo que estiveste em Angola?

MF: As pessoas, todas as que foram comigo, as que eu conheci lá e até as que não foram comigo mas com as quais fiz formação. Todas essas pessoas eu não consigo esquecer. Há caras que nunca vou esquecer e que provavelmente nem se lembram de mim. Mas não faz mal, porque eu sei que aquelas pessoas me ensinaram muito mais do que aquilo que eu alguma vez lhes vou poder ensinar, e é isso que eu trago delas. Eu trago-as sempre naquilo que eu faço.

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