Há dias recebi, em minha casa, duas revistas da Câmara Municipal da Maia, uma que nada me disse, além da propaganda nela contida e, outra bem feita, a “terramaia 3”, que dá que pensar. Mas não vou, neste pequeno artigo, me referir a ela, apenas a cito, porque logo no primeiro artigo se pergunta: “Estar sentado num banco de jardim é trabalho?”. Apeteceu-me afirmar logo que claro era trabalho! Se o trabalho físico é uma multiplicação de um espaço por uma força, e pelo cosseno do ângulo formado por estas “duas linhas”, estar sentado é trabalho: os olhos percorrem um espaço e fazem uma força; entre os dois vetores não existe um paparelismo, teremos uma nova multiplicação pelo cosseno do ângulo formado. Pelas duas linhas, que se intercetam em determinado lugar. Por isso, não coloco qualquer dúvida que estar sentado num banco é trabalhar; e tantas vezes mais do que o que parece. Também depende se a pessoa está sentada a fazer outra coisa que não seja só olhar, mas só olhar já é trabalho: pode estar a fazer malha, a fazer a sua oração, ou tantas coisas, como a imaginação a trabalhar na construção da arquitetura que o seu cérebro elabora sobre a humanidade. Poderá construir um poema ou a desconstruir o ruido que a paisagem lhe oferece. Isto é estar na cidade, é ser cidade, é construir ou (re)construir cidade.

Cozinca

É isso que eu queria falar em construir ou (re) construir a cidade, mesmo sentado num banco da cidade. O que está construído e o que pode ser (re)construído, no imaginário que é viver a e na cidade. Então sentei-me num banco, de jardim ou onde ele não existe, na esplanada de um café. Comecei a ver, a olhar, para a Cidade da Maia, onde não nasci, mas vivo. Cresci em Gaia, e é Gaia que ainda sinto viver em mim, mas agora estou na Maia.

Vi em frente ao edifício da Câmara, granito, em todo o lado, uma torre gigante, e pensei no que a paisagem me dizia. A aridez do deserto, onde as pessoas passam e correm, do lado de cá – aquele em que estou sentado -, ainda vejo as minhas amigas árvores, mas na praça nada me diz, nem transmite. As pedras falam é verdade, mas aquelas nada dizem, estão mortas, só se erguendo de um lado uma estátua, do outro uma torre. A estátua sei de quem é, e fala comigo, apesar de ter ideias diferentes, tive na pessoa um amigo, mas a torre, não fala, não traduz esta cidade da Maia, pequena, – já foi maior -, da labuta das gentes e do encontro dos corações; como se poderá ver, e bem, ou numa pequenina loja, à esquerda, que dizem ser do turismo ou naquele grande museu continuamente benzido pelas labaredas dos bem-me-queres. Essas pedras que estão à minha frente poderiam falar, de cada freguesia, de cada pessoa, que se deu para que a Maia e Portugal, fossem rosas vermelhas inscritas do ser de cada pessoa, mas não dizem nada. Às vezes lá colocam uns canteiros com flores, um horror às flores e às árvores, não são dali, e o mau gosto impera. Sei que à minha esquerda há um parque, por trás do edifício as crianças brincam, em desportos “radicais”, e à direita se ergue um bairro e um estádio, mais um parque de brincadeiras – digo de brincadeiras, porque brincar é muito sério -, e gosto, não do estádio que deveria ser noutro local, bem longe das nossas vistas. Ali, se desconstrói a cidade, terreno perdido; bem à sua frente temos um bairro, que está, e bem, a ser reelaborado.

Creio que este recinto que vejo à minha frente – à frente da Câmara -, é desajustado, predomina a rejeição, é um convite a que a população não entre, se vá embora, fuja dos políticos que se reúnem, tantas vezes, tantas vezes, que o trabalho não é realizado. Consigo ver nele, uma parada, que não coexiste com o património e, certamente, afugentará aqueles que nos visitam, vulgo turistas. Penso mesmo, que esses ficam muito longe das “pedras” e preferem outras novidades, como as zonas ribeirinhas do Porto.

Ia-me esquecendo, de falar na loja do turismo, que não está bem enquadrada, o que vemos e lemos, nessa loja, é o que faz falta nas “pedras”. Mãos inteligentes, harmoniosas, de beleza inconfundível, conseguem – mesmo, quase escondida, por vergonha?-, dar o ar de quem está sentado num banco de jardim e perscrutar o que de mais significativo existe na Maia. As lindas coisas expostas, as exposições que quase ninguém sabe, não fora, talvez, ficar junto à tributação das finanças, consegue prever uma luz daquilo que de melhor tem a Maia.

Do outro lado da linha do metro – que deveria ser enterrada -, vejo uma excelente casa da cultura e uma biblioteca, com o seu interessante trabalho. A casa da cultura quase que o não é, mas vá lá, vamos indo, de vez em quando até é, também, nas “pedras”, diga-se, vão-se realizando concertos, o que não é nada mau.

Do banco onde estou sentado vejo, assim, uma Maia triste, sem folego, sem história, sem uma cultura atuante e viva. Mas, que hei de fazer, é o que sinto!

Joaquim Armindo
Pós-Doutorando em Teologia
Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental

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