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“A gaguez de Joacine Katar”

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“O maior problema para uma pessoa que gagueja é a coragem de assumir a gaguez, de falar com e sobre a gaguez. Decidi fazer a minha parte”, disse Joacine Katar ainda durante a campanha eleitoral para as legislativas 2019.

Durante a mesma campanha foi acusada de fazer da gaguez bandeira e, inclusivamente, de exponenciar propositadamente essa sua condição para ganhar mediatismo.

Após a sua eleição como deputada à Assembleia da Republica pelo LIVRE, o partido pediu que Joacine Katar tivesse tolerância de tempo nas suas intervenções no parlamento para que tivesse oportunidade de concluir as suas ideias, em igualdade de circunstâncias com os demais.

Articular um discurso com o grau de gaguejo demonstrado é de facto uma tarefa hercúlea. Principalmente na Assembleia da República, onde a eloquência e a oratória encontram o seu habitat natural.

Sim é preciso coragem para discursar para toda (e sobre) uma nação com um grau de gaguez acentuado. Não raras vezes os gagos (independentemente do grau) tendem a oprimir essa condição, utilizando de forma excessiva conectores “bengalas” de discurso para evitar gaguejar. Ou simplesmente reprimem a fala.

No caso de Joacine não existem conectores que lhe valham. Nem ela parece preocupar-se com isso. Admiro-a por essa razão. Como pessoa. Já não politicamente.

Na realidade a sua primeira intervenção na Assembleia da Republica, a propósito da apresentação e discussão do programa de governo, foi desconcertante. A gaguez durante todo o discurso foi o elefante no meio da sala. Era visível o desconforto e até embaraço dos deputados, a tentar não ter reacção nenhuma para evitar as más interpretações. Já a mensagem essa perdeu-se.

Não se trata aqui de abraçar a diferença, ou de igualdade relativa no conceito de tratar igual o que é igual e tratar diferente o que é diferente.

Trata-se de alguém que encabeçou uma lista de um partido, foi eleita, e está na AR para defender os interesses de, neste caso, 1,09% dos eleitores. Trata-se de alguém que é incapaz de conseguir passar uma mensagem. E que faz perder o conteúdo na forma.

A não ser que o intuito seja mesmo esse e é aí que se esvanece a minha admiração. Quando sinto que Joacine não só não se oprime com a sua condição de gaga como ainda a quer exaltar. Ou a forma como parece querer afirmar-se não pelas ideias (independentemente de quais) mas por ser mulher, negra e gaga.

Ou como parece querer mostrar ao Mundo que gaguejar num discurso político não é um problema e que as pessoas é que têm que fazer um esforço para a entender.

Ela, como cabeça de lista é que tem que fazer o esforço para ser entendida. Seja gaga, surda, muda, ou das cores do arco- íris.

Joacine não tem o direito de ser discriminada pela sua gaguez. Mas tem o dever de compreender que é deputada e a retórica é um instrumento de trabalho. Concordemos ou não com as ideias do partido, essas ideias têm que ser transmitidas. E cabe-lhe facilitar essa transmissão. Seja através de um porta-voz, seja com terapia da fala, ou até decorando o texto previamente.

Como fez nomeadamente o rei Jorge VI, pai da rainha Isabel II de Inglaterra que durante um momento crucial na História, a segunda guerra mundial, recorreu a um terapeuta da fala para o ajudar a discursar para os seus súbditos, situação verídica retratada no célebre filme de 2010 “Kings Speech”. Ainda hoje o exemplo por excelência da superação de gaguez. Porque a gaguez não deve ser elevada mas sim superada.

Outrotanto os surdos-mudos e quem com eles lida aprendem linguagem gestual para conseguirem comunicar.

O partido Livre conseguiu efectivamente que concedessem tolerância de tempo a Joacine Katar para discursar na Assembleia da Republica, atendendo à desigualdade de circunstâncias retoricas com os outros membros do parlamento. Alegaram que desse modo se fazia cumprir a vontade de quem a elegeu (mais uma vez exaltando a gaguez da deputada e não as suas ideias). Alertaram ainda para o efeito pedagógico dessa medida.

Espero que tão cedo quanto possível Joacine e seu partido percebam que não é importante ter conseguido a igualdade relativa de lhe ter sido concedida tolerância de tempo para discursar. Porque na realidade a sua grande vitória será quando já não precisar dessa tolerância de tempo para ser entendida.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

Angelina Lima

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